Poster 1917 Artes & contextos

1917 de Sam Mendes

22 de janeiro, 2020 0 Por Maria da Luz Pinheiro

1917

O filme 1917, realizado por Sam Mendes (Beleza Americana, Skyfall) convida-nos a uma aproximação aos terrores da primeira guerra mundial (28/07/1914-11/11/1918). A partir dos relatos realizados pelo seu avô, a quem aliás dedica este trabalho, Sam Mendes procura construir uma narrativa em torno de dois soldados: o Cabo Blake (Dean-Charles Chapman) e o Cabo Schofield (George MacKay). Eles são dois jovens que como muitos outros se viram enredados num conflito armado no qual foram forçados a combater. Ambos são incumbidos de entregar ordens para cessar o ataque britânico à ofensiva alemã, no que ficou conhecido como Siegfriedstellung.

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Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) em 1917

Se estas ordens não fossem entregues, cerca de 1600 jovens soldados ingleses morreriam uma vez que se dirigiam para uma armadilha. Perante esta situação, os dois jovens veem-se obrigados a atravessar um longo caminho numa corrida contra o tempo, enfrentando inimigos, destruição eminente e uma enorme mortandade que seria provavelmente o seu destino.

Podemos questionar a viabilidade de mais um filme sobre guerra, neste caso sobre a primeira guerra mundial. No entanto, conseguimos estabelecer um paralelismo entre o que estava a suceder antes da guerra iniciar e o que vivemos hoje. E por essas razões, Sam Mendes considera este filme necessário. A guerra que despontou, obrigou a, pela primeira vez ignorar os nacionalismos que assolavam a Europa e forçou a união do Ocidente, contribuindo para a fundação de alguns dos princípios da sociedade como a conhecemos hoje. Foi um período que abalou profundamente a sociedade, obrigou ao sacrifício de muita gente nomeadamente os mais jovens. Sacrifício esse que é homenageado neste filme, em que as personagens principais são dois simples soldados, cujos papeis são interpretados por dois atores desconhecidos do grande público, quando comparados com alguns dos que dão corpo a patentes mais elevadas do exército como Coronel MacKenzie (Benedict Cumberbatch).

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Coronel MacKenzie (Benedict Cumberbatch) em 1917

Neste filme temos um retrato cru, íntimo e devastador sobre a guerra. Não há pudor algum em demonstrar o que custou o conflito armado e para tal destacamos o enorme trabalho demonstrado através de maquilhagem e prostéticos que foram resultado de uma profunda investigação histórica.

A fidelidade histórica é fundamental neste filme, e é levada ao extremo através das lesões sofridas pelos jovens que foram lutar no exército britânico. Estas lesões foram construídas o mais próximo do real, tendo tanto para a simulação destas, bem como para a construção das vítimas sido desenvolvidos estudos através de fotografias da época.

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Lieutenant Leslie (Andrew Scott, esquerda), Schofield (George MacKay, direita) e Blake (Dean-Charles Chapman, segundo da direita) em 1917

O facto de não poder filmar nos locais referidos no filme, levou a visitas prévias aos espaços de modo a tomar contacto com o “espírito do lugar”, bem como a recolha de diversos testemunhos na primeira pessoa que deram origem a um mosaico de fragmentos de bravura e terror numa guerra que nesta frente se desenvolve em território francês.

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Blake (Dean-Charles Chapman) em 1917

Esses testemunhos permitiram estabelecer a narrativa e a compreensão do que deveria ser criado de raiz noutros locais, uma vez que os lugares originais eram uma impossibilidade. Esse facto, em conjunto com o modo como o filme foi pensado em termos de gravação – takes longos, que resultam quase num “bailado” entre os atores, o espaço e as camaras, tornaram o processo de filmagem e construção do filme algo extremamente aliciante que culminou num resultado brilhante tanto em termos técnicos como estéticos. A opção do realizador permite ao espectador o acompanhamento da missão integralmente, e obriga a que os cenários tenham a dimensão real dos caminhos que os atores e operadores de câmara tomam, facto que é notório especialmente nas cenas que acontecem nas trincheiras.

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Schofield (George MacKay) com outros soldados em 1917

A escolha de filmar em longos takes, motivou naturalmente a muitos tempo de ensaios de modo a compreender bem como as cenas iriam ser efetivadas já com os cenários construídos, resultando num trabalho muito estruturado. Houve ainda espaço para a espontaneidade dos atores de modo a evitar que o desenrolar das cenas parecesse demasiado pensado e formatado.

Temos. portanto uma narrativa linear com uma edição longe do que sucede em grandes franchises, nos quais a edição recorre a imensos takes. Os longos takes permitem, a quem vê o filme esquecer a existência das câmaras e focar-se exclusivamente na história e nos seus intervenientes possibilitando uma fluidez na narrativa e na imagem. Esta proximidade coloca-nos, tal como aos dois Cabos, no centro do conflito armado. Os horrores desse conflito são igualmente acompanhados com uma fotografia profundamente estética que vive durante o dia da beleza da paisagem, dos espaços ou das ruínas e de noite do jogo de sombras.

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Schofield (George MacKay) em 1917,

É de realçar igualmente o treino que os atores tiveram de ter antes das filmagens. Foram contratados não só historiadores, de modo a assegurar a veracidade histórica, mas também ex militares. Viver nas trincheiras, aprender formações militares, compreender a organização de todo o equipamento que era levado por cada um dos soldados junto ao corpo constantemente, foram alguns dos aspetos apreendidos pelos atores. Todos estes aspetos e muitos outros são tidos em conta num filme que é um exercício de cinema brilhantemente executado como é habitual com Sam Mendes, que realiza em 1917 um retrato não romantizado da guerra.

Quando este filme venceu o Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme, bem como de Melhor Realizador, Sam Mendes falou-nos da importância da memória destes acontecimentos para a nossa sociedade, mas também de todos aqueles que participaram neste acontecimento. Este filme retrata cruamente os males da guerra, e o que ela requer – o sacrifício de muitos, o sofrimento, a devastação que é demonstrada nas várias paisagens que nos vão sendo mostradas ao longo de duas horas de filme. É um cenário terrível que temos de ser capazes de evitar a todo o custo.

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Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George MacKay) em 1917

O contínuo destaque que tem recebido através de continuas nomeações e prémios refuta que 1917 é um grande filme. Com uma estrutura profundamente teatral na qual se nota aliás o trabalho de Sam Mendes para o teatro que, neste caso, nos apresenta o teatro de guerra como ele é. Sem grande romanização, numerosos plot twists. É o horror puro e duro tratado com uma pujança artística que a academia já reconheceu, nomeando-o em dez categorias.

No entanto, ganhar ou não ganhar o óscar de melhor filme, para nós nem é importante, uma vez que é já considerado uma das grandes obras da nossa era.

Aos cinemas portugueses chega dia 23 de janeiro de 2020.

1917 no IMDB aqui

Mais sobre Sam Mendes: Gay Talese Steps Back From His Upcoming Book, ‘The Voyeur’s Motel


Maria da Luz Pinheiro
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