Olinda Beja - Um Grão de Café

Olinda Beja – Um Grão de Café

26 de janeiro, 2017 0 Por Luisa Fresta
Modo Noturno

(Atualizado)

O ano de 2013 corria as cortinas, não sem antes nos oferecer mais uma doce surpresa, desta feita por via da aclamada escritora santomense Olinda Beja (prémio Francisco José Tenreiro 2013), consagrada dentro e fora do seu país. O primeiro livro infantil publicado por um autor de S. Tomé e Príncipe surge-nos assim com o sugestivo título de Um Grão de Café (uma antologia de contos resultante da fusão entre um sonho da autora e a pesquisa e adaptação de contos tradicionais). A autora, também professora de Língua e Cultura Portuguesa na Suíça, contista, poeta e romancista, tem mantido ao longo dos anos uma forte ligação à pátria (que alimenta a sua obra) e promove-a por este mundo fora através de ações culturais e eventos de natureza diversa. Enche-nos assim de alegria este Um Grão de Café e acolhemos com entusiasmo esta obra pioneira, esperando que ajude a colorir e a conferir cheiro aos sonhos férteis, à prodigiosa imaginação e à insaciável curiosidade de todos os pequenos leitores da lusofonia, essa “ave migratória”, na visão poética de Olinda.

Continua a fazer todo o sentido mantermos o foco na sua imensa obra e no seu percurso. ((*) uma vez que a 29 de janeiro próximo, pelas 15h, Olinda Beja estará presente na sede da Associação Portuguesa de Poetas, em Lisboa, com “À Sombra do Oká”, juntamente com a também poeta e declamadora Regina Correia.)

Olinda Beja - Um Grão de Café Artes & contextos Olinda Beja iii

Olinda Beja e Filipe Santo (1) Poesia de S. Tomé e Príncipe – Casa Fernando Pessoa –  ©Jorge Trabulo Marques

São Tomé e Príncipe já desvendou um pouco de si ao mundo por intermédio de obras maiores de cariz diversificado, através da pena dos seus mais emblemáticos autores no género poesia, ensaio, novela; muitos contribuíram para expandir e consolidar a sua literatura, antes e após a proclamação do estado soberano – estou a pensar, naturalmente, no poeta Caetano da Costa Alegre, José Tenreiro, geógrafo de profissão e também poeta, Tomás Medeiros, médico e escritor, e Alda do Espírito Santo, sobejamente reconhecida no campo das Letras como escritora e poeta. Sem desprimor para as gerações mais jovens, para cada uma dessas vocações que despontam no instante mesmo em que vos escrevo e são literalmente sugadas, quantas vezes de forma inesperada, para o mundo viciante da literatura.

Um escritor começa por ser um bom leitor e escrever para crianças é certamente um inalienável compromisso, uma vez que visa não apenas o entretenimento de qualidade, mas também a edificação da personalidade dos mais novos, a criação de hábitos de leitura estimulando o prazer de ler; para além destes requisitos, cumpre invariavelmente uma função didática, relacionando a criança com o resto do mundo, através de uma linguagem ao alcance da sua compreensão e do seu vocabulário.

O livro infantil em Angola pós-Independência (prosa e/ou poesia) tem beneficiado do talento, da entrega e da persistência de muitos dos nossos melhores autores: de Rui Monteiro a Ondjaki, passando por Pepetela, Dário de Melo, Octaviano Correia. Lembremos igualmente as contribuições valiosíssimas e insubstituíveis no feminino, das quais recordo apenas algumas: Maria Eugénia Neto, Gabriela Antunes, Rosalina Pombal, Maria Celestina Fernandes, Cremilde Lima, mantendo estas duas últimas autoras uma produção regular e assídua nos últimos tempos. De tempos a tempos surgem novos talentos com propostas interessantes e originais para a literatura infanto-juvenil, porém, a volatilidade do mercado literário, a insuficiente valorização e o elevado custo de impressão e distribuição, são apontadas como algumas das razões que os levam a privilegiar outras carreiras, normalmente no ensino, onde mantêm um contacto próximo com o universo da criança e que supõem um mínimo de estabilidade. Poucos são os que vivem da literatura, mas muitos serão os que se dedicam a ela por inteiro, sem reservas, vivendo para a literatura, cedendo a essa paixão pela Criança e à vocação indómita para comunicar. Pessoalmente fascinam-me as obras híbridas que podem ser apreciadas igualmente por adultos e proporcionar leituras a vários níveis; nessa categoria incluiria As Aventuras de Ngunga, de Pepetela (que marcou definitivamente a minha maneira de ver o mundo), o conto A fronteira do asfalto, de Luandino Vieira, arrepiante na sua verosimilhança e na melodia dos diálogos, os belíssimos romances Clarissa e Música ao Longe, de Erico Veríssimo, Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado, Historia de una Gaviota y del Gato que le enseñó a volar, do chileno Luís Sepúlveda, quase todos os clássicos de Andersen, Grimm e La Fontaine e, claramente, O Principezinho, de Saint-Exupéry, que quanto a mim se destina a crianças com mais de 20 anos. Livros que permitem um saudável e construtivo convívio entre pais e filhos, avós e netos, alunos e professores, que aproximam gerações e promovem a cumplicidade familiar em torno desse objeto insubstituível que é o livro, desse amigo que não nos larga nunca.

Obrigada, Olinda Beja, e a todos os que encaram a responsabilidade de escrever para crianças com um sorriso na alma.

 

(* ) Fomos informados pela autora, já após a publicação deste artigo, que este evento foi adiado para data a anunciar. Lamentamos a indução em erro eventualmente causada. A&c.


 

Luisa Fresta
Open Call Artes & contextos