Quietude da Àgua

A Quietude da Água
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27 de abril, 2015 0 Por Rui Freitas
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  • 544Palavras
Também o tempo torna tudo relativo

Este artigo foi inicialmente publicado há mais de 7 anos - o que é muito em "Tempo Internet". Pode estar desatualizado e pode ter incongruências estéticas.

Dois adolescentes a viverem os conflitos e anseios  do seu crescimento, numa ilha paradisíaca cuja paz é perturbada pelo aparecimento de um cadáver na praia.

Em contraste com tudo o que se segue, Naomi Kawase começa por nos mostrar, talvez de modo provocatório, um violento tufão varrendo a paradisíaca ilha onde decorre a ação (Amami Oshima) e a morte, não sabemos se ritualística, mas brutal e sangrenta de uma cabra. Estas sequências confrontam-nos, (talvez aconselhando-nos a retermos) com o poder e supremacia da natureza e com a inevitabilidade da morte, qualquer que seja a sua forma.

A vida, a morte, o abandono, as ligações e a nossa humanidade, preenchem toda a narrativa, plena de silêncios luminosos, olhares perdidos no espaço, e talvez no tempo. A coberto de um ambiente sonoro fantástico em que os silêncios podem ser tão importantes como a música belíssima, o diretor de fotografia Yutaka Yamazaki proporciona-nos um visual rico desde o violento tufão ao close-up da morte da cabra; desde as paisagens paradisíacas da ilha às repousantes imagens subaquáticas.A Quietude da Àgua II

O filme começa propriamente com a descoberta por Kaito (Nijiri Murakami) do corpo nu e tatuado de um homem no mar, que vai causar perplexidade na pacífica ilha, mas que virá a ter o seu papel na história. Kaito corre para casa alarmado, enquanto a sua amiga Kyoko (Jun Yoshinaga) reage com mais serenidade. Os anciãos tentam perceber o significado daquele evento.

É só mais um incidente no crescimento dos dois jovens. Kyoko adora o mar, é rebelde e aparentemente segura, Kaiko é tímido e conformado, e recusa-se a nadar. Kyoko sente crescer em si uma paixão por Kaiko, mas este não sabe o que fazer com isso, parece não entender sequer. Estes dois jovens vizinhos vivem praticamente “sozinhos” e sem apoio. O pai de Kaito abandonou a família a mãe está sempre a trabalhar; Kyoko tem a mãe a morrer no hospital e o pai pouco ou nenhum apoio lhe dá, para além de (aparentes) devaneios filosóficos.

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A união e a separação, o afastamento voluntário do pai de Kaito, o “abandono” pela morte da mãe de Kyoko, provocam nos dois jovens sentimentos e emoções ora desconhecidas, ora conflituosas em si. Emoções que os fazem crescer e que se acrescentam aos turbilhões que a idade traz como o florescimento do amor um pelo outro.

O filme vem em crescendo lento até atingir o seu ponto alto em espiritualidade, quando a mãe de Kyoko volta para casa para os seus últimos dias de vida. Os amigos e vizinhos rodeiam-na e cantam e dançam para lhe dar força, enquanto a jovem se confronta com o seu destino que se recusa a aceitar. Os jovens sobem ao centro da história que se desenrolará plena de simbolismo e de beleza.

O olhar da câmara parece acariciar tudo aquilo em que toca, e toca quase sempre lentamente, numa história essencialmente de amadurecimento e de relações, de força e fragilidades, de continuidade e de vida. Um filme intenso, mas sereno e introspetivo.

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Jornalista, Diretor. Licenciado em Estudos Artísticos. Escreve poesia e conto, pinta com quase tudo e divaga sobre as artes. É um diletante irrecuperável.

Jaime Roriz Advogados Artes & contextos