Tim Madeira - Atelier

Tim Madeira – O Homem por detrás do Artista

27 de novembro, 2020 0 Por Isabel Pinheiro

Tim Madeira

 

O HOMEM POR DETRÁS DO ARTISTA

Tim Madeira é conhecido como artista plástico, pintor, mas poderíamos escolher entre várias profissões para o identificar.

Vejamos, temos o pintor, o “transformador” de candeeiros, (uma paixão antiga), mexe na cerâmica, põe a mãozinha na decoração de eventos, área em que trabalhou durante 20 anos, faz instalações com objetos fabricados ou trabalhados por si, trabalha o ferro, arte urbana também está no seu curriculum, esculturas em ferro e, além disto ainda é arquiteto, embora só por tradição familiar.

 

Tim Madeira - Atelier

Tim Madeira – o Atelier

 

E agora, por onde vamos começar? Posso começar por perguntar,
– Quando tiraste Arquitetura, já pensavas na pintura ou só veio a acontecer mais tarde?

E aqui vou descobrir um pormenor muito engraçado, Tim Madeira começou a pintar ou a “fazer” peças diferentes logo desde muito pequeno e conforme ia rabiscando as suas pinturas ou objetos que transformava, ia-os oferecendo a toda a família e assim a avó Maria Emília foi acumulando um vasto espólio das obras do neto, que a senhora adorava.

Anos mais tarde, quando a avó faleceu, Tim veio a saber que, por testamento, esta avó deliciosa e muito querida tinha guardado sempre todo aquele material e deixou expresso que todas as obras que o neto lhe tinha oferecido ao longo da vida, lhe deveriam ser devolvidas na íntegra e, assim, ainda hoje Tim Madeira guarda com muito orgulho e ternura as suas primeiras obras de criança, desde os seus 5 ou 6 anos de idade, conservadas intactamente pela querida avó Maria Emília.

Simplesmente delicioso!
– Prosseguimos.

Depois foram os candeeiros que te atraíram ?

Sim e não. Também estes têm um início curioso; existiam na cave do prédio onde vivia a avó, várias coisas que ninguém na família queria, objetos que, a bem dizer, não serviam para nada, mas isso é na cabeça do comum dos mortais, para Tim Madeira este sítio era o paraíso na terra, e assim, lá foi ele bisbilhotar o que havia na cave, que ninguém queria.

E foi lá que descobriu o primeiro candeeiro que iria transformar na sua vida; pegou no mesmo, levou-o para sua casa e foi olhando para ele ao longo de 2 anos, altura em que resolveu “meter mãos à obra”, muniu-se dos materiais necessários, aprendeu a mexer na parte elétrica, e transformou o velho candeeiro que ninguém queria numa peça decorativa única, que pendurou na sua casa e onde toda a gente que o visitava perguntava, “mas onde arranjaste este candeeiro? é tão giro” e aí decidiu com um amigo arquiteto, Fernando Hipólito, proprietário de uma loja de decoração em Cascais, colocar o candeeiro à venda e ver o que daí resultava.

Pois bem, o candeeiro foi vendido imediatamente e assim foi continuando a transformar outros e a pô-los à venda, o que foi um autêntico sucesso.

 

Tim Madeira - Atelier

Tim Madeira

 

Ainda hoje, por encomenda, continua a transformar candeeiros, todos peças únicas, impossíveis de copiar, até pelo próprio, mas agora, só nos sobra uma atividade, a pintura.

– Como foi o percurso até à pintura?
Qual destas áreas vamos escolher? Nenhuma!
O profissional parou aqui!

Esta entrevista tem por título “O HOMEM POR DETRÁS DO ARTISTA” portanto, escolhemos o homem.

Dono de uma simpatia e ternura contagiantes, este homem que perdeu os pais muito cedo, ganhou com a irmã Laura uma relação e uma cumplicidade para a vida. Ambos respeitadores do trabalho e personalidade do outro, conseguem até coabitar na mesma casa, sem se chocarem. A união, respeito, cumplicidade e amizade que têm um pelo outro são indestrutíveis.
Cada um com profissões completamente opostas entendem-se na perfeição, só há um pormenor em que são iguais; ambos são muitíssimo organizados e pontuais; porém há um pormenor que dá jeito, a mana sabe sempre onde está tudo, sabe as datas de todos os acontecimentos, como se resolvem os problemas informáticos, o que é muito útil, diga-se de passagem.

Quando nos aproximamos dele, a primeira coisa que faz é abrir os braços e vem de lá um abraço do fundo do coração. De riso fácil, muito atento aos seus amigos, que o adoram e o convidam permanentemente para 1 semana em casa de um, um fim-de-semana em casa de outro, um almoço para nos rirmos e que muitas vezes acaba num plano para qualquer tipo de trabalho, ou não.

Mas não se pense que é qualquer pessoa que “entra” naquele coração. Há que perceber o que é realmente amizade verdadeira ou apenas interesse para aparecer na fotografia com o Tim Madeira ou tentar fazer uma exposição com alguém que há muito já tem o seu lugar bem marcado no mundo das artes plásticas.
Assim posso perguntar-lhe:

– Consideras que tens muitos amigos, daqueles do peito, ou muitos conhecidos?

A resposta não se faz esperar e é até muito clara, “tenho poucos amigos do peito mesmo, e esses são de há vários anos e para a vida”, conhecidos tenho muitos.
Os interesseiros não lhe fazem sequer mossa, nem existem para ele.

 

Tim Madeira - Atelier

Tim Madeira

 

Apesar de ser um homem social, onde muitas vezes é obrigado a ir devido à sua profissão, é em casa que adora estar e onde se sente o calor da família pelos retratos e peças antigas espalhadas por toda a casa.

Não deve haver 1 metro de parede livre, mas há um no seu atelier que se destaca de todos os outros, o retrato grande da mãe, que, como que supervisiona toda a casa; “não vá fugir-lhe o pézinho para o disparate”, a mãe está ali e toma conta dele.

Solteiro e bom rapaz, nunca teve filhos, o que o entristece, gostava de ter um “little Tim”na sua vida.
Não calhou, é o que se costuma dizer, mas quem sabe, ainda um dia acontece.
Não tem um “little Tim” pela casa, mas tem um amigo muito querido que, carinhosamente, trata por TimTim.

Dono do seu próprio tempo e horários, há uma coisa de que não abdica, deitar-se cedo; tem uma boa relação com a sua almofada, precisa do seu sono tranquilo, dorme de consciência tranquila e em paz com a vida. Atingiu um estado de espírito onde, se lhe perguntassem há 20 anos se esperaria estar neste patamar de tranquilidade, provavelmente diria que não, mas o que é certo é que é assim que se sente, não ambiciona isto ou aquilo, vai vivendo conforme as coisas vão surgindo e acontecendo, não tem por hábito, ou por feitio, estabelecer objetivos determinantes a ponto de o angustiarem, não sente falta de ter que fazer isto ou aquilo, simplesmente a vida vai fluindo e ele aceita-a com a calma e segurança de quem já viveu bastante e já passou por tanta coisa que pouco o surpreende.

Faz questão de chegar cedo a casa, precisa dos seus momentos consigo próprio; não se considera um homem solitário mas os seus momentos “alone” também não os dispensa.

Se não abdica de se deitar cedo, salvo raras exceções, também é certo que adora levantar-se igualmente cedo.
É de manhã que gosta de começar a organizar o dia e a pintar. Como é sabido, todos os dias pinta e é caso para lhe perguntar:

-Oh homem, onde vais buscar tanta imaginação para todos os dias pintares?
Às tantas, uma pessoa também se cansa, não?
Ri-se com ar de gaiato, puxando o cabelo para trás, e responde: que queres que te diga, eu também não sei…
“Sou muito irrequieto e muito observador, mesmo um observador compulsivo, tenho uma memória visual fortíssima e não sei estar de mãos quietas; na minha cabeça andam sempre várias ideias a pairar, estou sempre à frente em relação aos projetos que estou a fazer. Faço 2 ou 3 quadros ao mesmo tempo, porque um ainda não secou, outro seca com o secador de cabelo, se preciso for”. Não consegue é estar parado.
“Na minha cabeça já está a nascer o próximo projeto, a próxima obra.”

 

Tim Madeira - Atelier

Tim Madeira – O atelier

 

Afinal, cansa-se é quando está parado, fica inquieto, ansioso, tem de mexer e remexer naqueles pincéis, papéis de diferentes qualidades, tintas que mistura com lógica, lógica mas só na cabeça dele, e faz mais uns traços, uns rabiscos, indecifráveis para qualquer comum dos mortais mas que para ele já começam a ter algum sentido logo desde o início.

Adora experimentar novos materiais, fazer experiências diferentes para testar o que dali sai, e já pintou com café, usa sacas de serapilheira como tela, velas de barco, jeans, apanha coisas da rua e transforma-as para poder pintá-las ou usar de outra forma.
Se vir uma cadeira ou qualquer coisa do género no lixo, é muito capaz de ir lá buscá-la para lhe dar outra vida.
Se alguma vez, vir alguém a apanhar posters na estrada, pare, pois pode ser o Tim Madeira.
Coisas de artista, está-se a ver!

“Quando vou a conduzir perco-me várias vezes porque vou tão absorvido no que já estou a imaginar que não tomo atenção ao nome das ruas, mas curiosa e até inconscientemente decoro todo o caminho visualmente e sei exatamente por onde passei e chegar à morada pretendida, se lá precisar de voltar.” – acrescenta Tim Madeira.

Há uns anos atrás passou 2 meses numa Residência Artística na China, um antigo Palácio recuperado, transformado em Centro de Arte Contemporânea, através da DAST Foundation, mesmo China interior, sul, com colegas de vários países do mundo, onde cada um iria fazer um projeto adequado ao local onde estavam, com materiais diferentes, etc.; considera esta uma das mais importantes e enriquecedoras experiências da sua vida. Aliás, costuma dizer que há no seu trabalho, uma fase “antes da China” e outra “depois da China”.

Aprendeu muito, assim como também ensinou e, mais uma vez, surpreendeu tudo e todos quando, ao perguntarem-lhe pelo seu projeto, simplesmente respondeu:
– Não tenho.

Claro que não tinha, a sua cabeça anda a 1000 e quando lá chegou, imediatamente, soube o que iria construir, os materiais locais a usar, e os colegas que insistentemente perguntavam:
Onde está o teu projeto, rapidamente perceberam que estava ali alguém diferente.
Assim fez o seu projeto, afinal sem projeto prévio, e conseguiu mostrar que cada um trabalha à sua maneira, com a sua personalidade própria, e que também assim é possível atingir o objetivo pretendido.

 

Tim Madeira - Atelier

Tim Madeira

 

Tem o “bichinho” das viagens e já conheceu o mundo quase todo, seja de mochila às costas, quando era mais novo, (agora as costas já começam a doer) seja como as pessoas crescidas.

Visitou sempre países de culturas muito diferentes da nossa, por exemplo, Jordânia, Síria e Irão, o chamado Antigo Império Persa, lindíssimos embora culturalmente semelhantes, mas culturas sempre enriquecedoras, Índia, Egipto, Vietname, Guatemala, África pela qual tem uma enorme paixão, Mauritania, Marrocos, etc. etc.; e considera que só desta maneira se consegue conhecer as outras pessoas, aceitar que existem pessoas diferentes, com costumes diferentes que não têm que ser necessariamente piores, são apenas diferentes mas nem por isso temos de nos afastar, nós também somos diferentes para esses povos, e a nossa curiosidade em conhecer mais e a nossa sede de absorver as suas culturas, os seus costumes, é a mesma que esses povos sentem em relação a nós.

“Dá-nos um imenso respeito pelo ser humano que está ao nosso lado e é diferente, isso sim, é de facto, saber viver em sociedade.” diz Tim Madeira.
A única forma de nos inspirarmos, de “renovar” a cabeça, de sentir e pensar diferente é através dessas viagens, dessas outras culturas.

Mudando de tema, adora animais e, se pudesse, levaria todos para casa, para já tem 5 cães que adora e tenta frequentemente arranjar casa para outros que lhe vão aparecendo pela frente.

Dono de uma carreira invejável, com um curriculum interminável, continua o mesmo Tim Madeira de quando começou a trabalhar, simples, despretensioso, sempre disponível para ajudar os outros, bem disposto e acima de tudo, sempre pronto para seguir em frente, de uma forma positiva e entusiasmado com a vida.
Não é homem de olhar para trás e ficar a pensar que foi assim e devia ter sido ao contrário, não; avança e a vida continua.

Novas experiências, venham elas!!!


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Isabel Pinheiro
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