Hamster Clown

Hamster Clown – Ridículo, cor e fantasia
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29 de junho, 2021 0 Por Filipe Daniel
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Também o tempo torna tudo relativo

Este artigo foi inicialmente publicado há mais de 1 ano, o que em 'Tempo Internet' é bastante. Pode estar desatualizado.

Hamster Clown

 

 

Uma fuga, uma outra realidade, entrar no teatro e encontrar um espetáculo simples, sem enormes simbolismos ou códigos, sem mensagens subversivas, políticas, éticas, estéticas ou morais, mas, simultaneamente, tudo isso- entretenimento, um espetáculo que nos descansa o sentido de urgência que tantos outros promovem.

Até dia 4 de julho está em cena no São Luiz Teatro Municipal em Lisboa o espetáculo Hamster Clown com encenação de Ricardo Neves-Neves e interpretação de Rui Paixão.

Um espetáculo sem texto, uma história acima de tudo sobre libertação, nonsense e transformação.
Independentemente da narrativa e clássica história com início, meio e fim que poderia ser contada num qualquer outro espetáculo no palco do São Luiz, tomemos em consideração a enorme moldura dourada que limita o palco. Ao descer das luzes o aro dourado vai resistindo ao elevar do escuro e torna-se uma porta de entrada ao mundo onírico que Hamster Clown nos proporciona.

Em palco após levantarem o pano, um jardim barroco com estátuas renascentistas é o local do nosso sonho coletivo na hora que se segue. Neste jardim um enorme buraco redondo (que pode ser a roda do hamster, um olho, de um caleidoscópio ou como na pintura um ponto de fuga que nos leva ainda mais além) limita o espaço ao fundo do palco, nele será feita projeção multimédia, mas mais do que isso reforça o ambiente psicadélico que poderemos vivenciar com Rui Paixão.

 

Rui Paixão em Hamster Clown encenado por Ricardo Neves-Neves

Rui Paixão em Hamster Clown encenado por Ricardo Neves-Neves

 

Com a ausência de texto a cenografia, os figurinos, o vídeo, a luz e o som contracenam e compõem todo um mundo em que a personagem navega e se transforma…

Hamster

Palhaço

Mulher de Casa atarefada

Gato

Lagosta

Comédia, um Susto com um mocho, Suspense, um polvo gigante que cria uma relação algo pornográfica, um supermercado, Ah! E um pequeno ser algo-alienígena ajudam a nossa personagem a cumprir estas diferentes fases de metamorfose, sempre bem justificadas, adequadas e cujas palavras se tornam tão evidentes que nem é necessário serem ditas, o melhor mesmo é que cada um crie um possível texto (só se achar necessário) e acrescente camadas à alucinação que a encenação Ricardo Neves-Neves apresenta.

 

Rui Paixão em Hamster Clown encenado por Ricardo Neves-Neves

Rui Paixão em Hamster Clown encenado por Ricardo Neves-Neves

 

A ideia inicial da evolução de hamster para ser humano, um ratinho que foge da sua roda para outro lado reforça o absurdo da dramaturgia, pois essa mesma roda continua presente e o jardim é sempre o mesmo. Aos que quiserem aventurar-se em explicações psicanalisticas, de relembrar os longos dias de confinamento cujas companhias para muitos foram as plantas de casa.
Não foi preciso texto, não foram precisos grandes significados ou epifanias estéticas, um conjunto de segmentos num universo fantasioso e colorido enchem-nos a imaginação e permitem-nos desfrutar. É apenas deixar-nos levar.

Ainda bem que este espetáculo existe.

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Hamster Clown  no São Luiz Teatro Municipal

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Filipe Daniel
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Autor

Lisboa, 1999. Tenta encontrar respostas através do Palco. Vê o teatro como um aliado da história e filosofia para resolver (ou não) os problemas do mundo.

Jaime Roriz Advogados Artes & contextos