Jazz: Origens e Influências (Parte I) Artes & contextos Joe Williams and Count Basies Orchestra

Jazz: Origens e Influências (Parte I)

14 de junho, 2016 0 Por Bruno Freitas
Modo Noturno

Um século de gravações de Jazz

Os estilos que dão origem ao Jazz são essencialmente as melodias e ritmos tribais africanos combinados com as melodias, ritmos e instrumentos da música clássica europeia dando origem a uma sonoridade completamente nova e única. Desde a sua origem o género também se diferenciava da música europeia por acrescentar à música um novo elemento, o improviso. No Jazz, cada artista é encorajado a improvisar com o seu instrumento, enquanto os restantes instrumentos acompanham. Desta forma cada artista tem a oportunidade de demonstrar a sua técnica e habilidade produzindo um solo.

Duke Ellington, Cat Anderson

No que diz respeito aos principais artistas deste género, não é fácil de determinar, pois para além de já ser mais de um século de História, (um século exato desde a primeira gravação de uma tema Jazz) tem vários subgéneros, cada um deles com vários artistas conhecidos. No entanto, penso que alguns nomes podem ser realçados, tais como: Louis Armstrong, J.J. Johnsonn, Benny Goodman, Count Basie, Charlie Parker, Miles Davis, John Coltrane, Chet Baker, Bill Evans, Keith Jarret, Pat Metheny, entre muitos outros. Estes são apenas alguns dos nomes que ao longo de mais de um século têm fortemente contribuído para a imensidão que é o Jazz.

Para determinar as origens e influências do Jazz é necessário escolher uma data para iniciar a contextualização histórica, data essa que não seria o início do estilo, mas anterior permitindo-nos enquadrar as suas origens. A data escolhida foi, 1862, por ser um ano muito importante para a comunidade negra norte-americana, principalmente a que vivia no sul dos E.U.A, mais particularmente em Nova Orleães (N.O.), a cidade natal do Jazz.

Louis Armstrong

Em 1862, Nova Orleães é conquistada pela União, num ataque noturno de surpresa através do rio Mississípi, a Confederação não resistiu perdendo a sua cidade “forte” para os estados do norte, fator que foi decisivo para o fim da Guerra Civil e a vitória da União, em 1865. Como resultado da vitória dos estados “livres” do norte sobre os estados “esclavagistas” do sul na Guerra, nasce um país livre, com uma nova Emenda na Constituição que afirma que nos E.U.A. a escravatura não tem lugar. Com o fim da escravatura, todas as pessoas da comunidade negra são, pessoas livres. Tal notícia tanto trouxe uma sensação de euforia generalizada como, uma onda de grande criatividade e celebração por todo o país, obviamente.

Bill Evans at Montreux Jazz Festival, Switzerland 7/13/1978

Bill Evans at Montreux Jazz Festival, Switzerland 7/13/1978

Devido ao facto de os estados do sul serem esclavagistas, o Senado temia que a nova Emenda não fosse cumprida nessa zona do território americano, como tal, pediu ao exército da União que mantivesse a sua presença nesses sítios para aplicar a Reconstrução, que era basicamente, um plano com duas partes essenciais; uma, a reconstrução física das cidades destruídas pela guerra e a outra, a “reabilitação” social e civil dos estados esclavagistas, obrigando e forçando a existência de direitos civis e o cumprimento da igualdade entre raças. Esta ocupação dos estados sulistas durou doze anos.

Em 1877, a Reconstrução terminou, o que provocou um retrocesso no que diz respeito à aplicação dos direitos civis e da igualdade entre raças. Os brancos começaram a perseguir e a agredir as pessoas de raça negra. O Ku Klux Klan (criado em 1865) ganha muita força com o fim da Reconstrução em 1877, e os atentados contra os negros começam a ser uma constante.

Nos anos que se seguem ao fim da guerra, mas principalmente na última década do séc. XIX, verificou-se uma grande onde de migração por parte da comunidade negra em todo o território americano. Sendo que N.O. foi uma das cidades do sul que recebeu mais pessoas, em parte por ser um sítio de passagem de muitos antigos escravos que trabalhavam nas plantações de algodão, abundantes no Delta do rio Mississípi e que, agora como homens livres, procuravam melhores oportunidades de vida por todo o país.

Charlie Parker, Tommy Potter, Miles Davis, Duke Jordan, and Max Roach

Charlie Parker, Tommy Potter, Miles Davis, Duke Jordan, and Max Roach

Deste modo, na década de 1890, chegam dois novos géneros musicais a N.O., dois géneros que sem os quais o Jazz nunca teria existido. O primeiro chama-se Ragtime e foi o género mais popular nos E.U.A durante muitos anos. Este género foi originalmente criado por pianistas negros vindos do oeste americano. É resultado da fusão de “tudo um pouco”, desde a mistura do folclore das diferentes nações europeias, com a mistura da “música clássica” do velho continente, até á fusão destas com as músicas de rituais das tribos africanas, misturadas com as músicas populares das tribos. A fusão de todos estes elementos tão distintos entre si, resultou numa melodia alucinante, com ritmos inquietantes, dançados em “marchas alegres”. O segundo género é o Blues, este chega a N.O. através dos refugiados negros que chegam à cidade de barco, vindos do Delta do Mississípi, onde se localizavam os campos de algodão, em que estes trabalhavam como escravos antes do fim da Guerra Civil.

Big Joe_Williams

Em N.O., os músicos de Blues têm a oportunidade de tocar instrumentos de sopro que foram deixados na cidade pelos militares, após a Guerra Civil. Com os trompetes que encontram, os músicos começam a imitar os cânticos de igreja e começam a criar uma sonoridade diferente do usual para os instrumentos de sopro, dando-lhes um som mais vocal e “desvanecido” no fim das notas. Esta nova sonoridade adicionada a um acompanhamento mais característico do Blues e assim temos aquilo que muitos dizem ser, o inicio do Jazz.

No ano de 1877, nasce Buddy Bolden, que foi o primeiro trompetista de Jazz a ser conceituado como tal. Foi também o primeiro a introduzir o Big Four, que é uma técnica que consiste na acentuação do 2º e do 4º beat de uma marcha. Em 1906, Buddy Bolden é o músico mais conhecido de N.O..

Exemplo executado por Wynton Marsalis a partir do minuto 0:50 do vídeo,

O grande responsável pela introdução do piano no Jazz, principalmente por recorrer frequentemente a solos muito ritmados, foi “Jelly Roll” Morton.

Foi também o primeiro músico de Jazz a escrever em pauta o que compunha e tocava. Algumas das suas músicas incorporavam o ritmo da habanera, que é uma música popular das Caraíbas, dando origem a uma melodia e ritmo próprio, chamado Spanish Tinge que “Jelly Roll” Morton, dizia ser essencial ao Jazz.

Nos anos que se seguem, surgem vários artistas que se tornam populares pelo Jazz em N.O.. Um dos primeiros a destacar-se pela sua excelência a tocar clarinete, e que durante quase 50 anos encantou o mundo, foi Sidney Bechet, nascido em 1897, em Nova Orleães.

Aos dez anos já tocava e aos 21 já era o conhecido músico de N.O..

Entretanto há precisamente 100 anos, em 1916, é gravada a primeira faixa de jazz num estúdio, em Nova Iorque (N.I.). Esta faixa lançada em 1917, é da autoria da banda, The Original Dixieland Jass Band.

Após a Primeira Guerra Mundial, em 1918, a história do Jazz, deixou de estar centrada em N.O. e passou a ser uma história de duas cidades em paralelo, Chicago e Nova Iorque.

Chicago foi a cidade onde os músicos negros de Jazz encontraram riqueza, fama e uma audiência branca completamente nova.

Nova Iorque no que diz respeito ao Jazz, dividia-se em duas zonas diferentes, Time Square onde a “nata” branca da sociedade ia para ouvir Jazz, em alguns casos tocados por músicos brancos, – esta vertente do jazz caracterizava-se por ser um jazz mais “festivo” e para dançar; – a outra zona é Harlem onde a “nata” negra da sociedade ia para ouvir Jazz, que aqui se caracterizava por uma maior influência do Blues e também mais improviso.

 

 

Continua em: Jazz: Origens e Influências (Parte II)


 

 

Bruno Freitas
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