Mário Cesariny

Mário Cesariny

14 de abril, 2015 0 Por Rui Freitas
Modo Noturno

O pai ambicionou para si um futuro de ourives que lhe seguisse os passos e o jovem Mário Cesarny, que ainda teve uma passagem fugaz pelo curso de arquitetura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, completou mesmo na Escola de Artes Decorativas António Arroio um curso de cinzelagem. Mais tarde voltaria a estudar Belas Artes na Académie de la Grande Chaumière em Paris quando já estava determinado e seguro de que a arte seria a sua vida. Contra a vontade do pai, ainda estudou música com Fernando Lopes Graça, tendo-se revelado um exímio pianista, e cantou no Coro da Academia dos Amadores de Música.

Nasceu em 1923 em Benfica e ainda jovem começou a frequentar as tertúlias de artistas lisboetas. Começou a escrever poesia “de esquerda” seduzido pelos neo realistas e reuniu mais tarde o Mário Cesarinyconjunto de obras produzidas neste período no livro NobilíssimaVisão, publicado em 1959. Nos anos 40 do séc. XX já pintava e criava plasticamente experimentando várias técnicas de que se destacavam as colagens e as figuras de sopro.

Depois desta aproximação acabou por se afastar dos neo realistas por considerar este movimento um braço artístico do Partido Comunista Português na sua tentativa de homogeneizar e controlar as produções e manifestações artísticas e culturais do país. Ainda parodiou sobre esta incursão em Nicolau Cansado Escritor, incluído em Corpo Visível, a primeira das suas 19 obras literárias publicada em 1950. Considerava-se então abafado entre as duas forças opostas que rejeitava: a estalinista do Realismo-socialista (como se chamava no resto da Europa o que em Portugal se chamou Neo realismo) e Salazar.

É difícil escolher entre o da literatura e o da pintura em que Panteão colocar Cesariny, mas se foi na Literatura que mais se mostrou o seu brilhantismo, foi através da pintura que se aproximou do Surrealismo, que também lhe serviu, como dizia, para esconjurar a poesia de veia neo realista, e atingir a liberdade poética. Atingiu-a através da escrita automática e dos jogos do “cadavre exquis”, dos jogos de palavras ricos em inconsistências, e absurdos e pelo humor negro ou até cínico surrealistas.

Na António Arroio conhecera Cruzeiro Seixas, Fernando José Francisco, Pomar e Vespeira e “por volta” de 1942 no café Herminius em Lisboa, juntamente com aqueles e com Fernando de Azevedo, Pedro Oom,  António Maria Lisboa, Henrique Risques Pereira, e outros começou a gerar-se o que viria a ser o Grupo Surrealista de Lisboa.

Em 1946 chegou-lhe às mãos o livro Histoire du surréalisme (publicado em França em 1944), de Maurice Nadeau, que juntamente com O’Neill consumiu sofregamente e embora Nadeau desse nessa obra o movimento como acabado, para eles começaria ali declarando-se então surrealistas, encantados pela poesia e pelo espírito de liberdade propalado.

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Em 1947 deslocou-se a Paris para conhecer André Breton. Bateu-lhe à porta e encontraram-se num café, embora como fazia questão de deixar claro, não tenha ido para conhecer o Surrealismo, porque já era surrealista. Ainda assim, terão sido estes encontros que o mobilizaram para a formação, logo que regressou a Portugal, do grupo português, bem como para a criação de uma revista para expansão do pensamento surrealista. Este segundo projeto acabou por não passar disso porque, como dizia, percebeu que seriam calados pela polícia política e acabariam presos e ainda segundo as suas próprias palavras, não estava interessado – ao contrário dos estalinistas – em ser mártir.

Logo em 1949 depois de desentendimentos com o Grupo Surrealista quanto aos princípios e aos “modos” surrealistas saiu, juntamente com  Cruzeiro Seixas, Mário-Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Henrique Risques Pereira, Fernando José Francisco, Pedro Oom, João Artur da Silva, entre outros, – estes preconizavam um Surrealismo livre, de artistas independentes, a que um grupo nada acrescentava – para enquanto dissidentes passarem a ser conhecidos como Os Surrealistas.

Foram os anos 50 os mais prolíficos literariamente, tendo publicado para além do já referido Corpo Visível (1950) Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano, (1952) Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos (1953), Manual de Prestidigitação (1956) Pena Capital (1957) Alguns Mitos Maiores e Alguns Mitos Menores Postos à Circulação pelo Autor  (1958) Nobilíssima Visão, (1959) e Poesia, (1944 – 1955). A sua poesia tem um caráter de contestação permanente que confronta o “normal” no comportamento e nos princípios, na própria sexualidade; ataca o senso comum; manifesta-se contra as instituições do pensamento sempre de uma forma espontânea, arrebatada e subversiva.

Encarava o Surrealismo como uma revolução social, mas rejeitava categoricamente a sujeição do objeto artístico a qualquer objetivo político e demarcava-se dos dogmatismos de Breton, numa ética muito sua e ao mesmo tempo muito surrealista. Numa atitude agressiva em que toma a poesia como uma arma ao serviço de uma causa nobre, de choque com a mentalidade burguesa, preconizava uma revolução total dos costumes e mentalidades instituídas, dos códigos de conduta e das escalas de valor impostas e tornou-se o mais acérrimo defensor do surrealismo em Portugal.

Mario Cesariny II

O Surrealismo era viver pelo amor, pela liberdade e pela poesia, a trindade que substituiria a seu ver a “liberdade, igualdade, fraternidade” da Revolução francesa. O Surrealismo é uma Revolução, mental, social, moral, dizia, é uma questão de atitude, não é pela arte que se pratica ou pelo que se representa que se é ou deixa de ser surrealista, mas sim por uma escolha, por uma opção pela revolução, pela transformação. Considerava que as maiores revoluções do séc. XX foram a russa e a surrealista e que ambas falharam. A russa terminou num inferno, a surrealista falhou na linguagem, no alcance, na consciencialização e foi ultrapassada por uma geração que não entendia os modernismos e arrumou o Surrealismo na prateleira. Afirmava então que em vez de uma revolução tiveram uma implosão, explodiu, mas foi para dentro já que a censura não permitiria de outra forma.

Nos anos 60 começou a pintar com mais regularidade reduzindo o fluxo poético, mas se bem que as datas de publicação das suas obras nem sempre coincidam com as da sua criação, ainda publicou Planisfério e Outros Poemas (1961), Um Auto para Jerusalém (1964), Titânia e A Cidade Queimada (1965). As suas últimas publicações foram 19 Projectos de Prémio Aldonso Ortigão Seguidos de Poemas de Londres (1971), As Mãos na Água a Cabeça no Mar (1972), Burlescas, Teóricas e Sentimentais (1972), e finalmente em 80 e 90 Primavera Autónoma das Estradas (1980), Vieira da Silva, Arpad Szenes ou O Castelo Surrealista (1984), O Virgem Negra (1989), Titânia (1994) e A alma e o mundo (1997). Por finais de 70 deixara praticamente de escrever para se dedicar exclusivamente à pintura por se ter consumido disse, o fogo que o fazia escrever. Apesar da reconhecida excelência da sua escrita, nunca conseguiu por sua via o suficiente para viver, pelo que era ajudado pela família.

Apenas a partir de 74 se sentiu livre, – para além de tudo o resto, pela sua orientação sexual, – das prepotências da polícia que de vez em quando o chamava apenas para o chatear. Começou então a dar entrevistas com frequência e a tentar trazer à luz do dia o verdadeiro surrealismo, ou clarificar a sua imagem que considerava ter sido muito e durante muito tempo denegrida e confundida. Foi a partir desta década que começou a reunir alguns dos seus trabalhos inéditos e a publicá-los, com particular atenção para aqueles do período mais forte do Surrealismo incluindo alguns manifestos.

Publicou traduções de Rimbaud e de Artaud. Colaborou no Jornal de Letras, na revista Pirâmide, na Artes e Cadernos do meio dia, e nas estrangeiras Brumes Blondes (Holanda), Phases e La Crecele Noire (França), Transformaction (Inglaterra), e Arsenal: Surrealist Subversion (EUA).

Considerava António Maria Lisboa aquele que mais longe chegou no Surrealismo e Fernando José Francisco o que mais tinha garra de pintor. Tinha Teixeira de Pascoaes como o maior dos poetas portugueses, “o mágico”, maior do que Pessoa cuja dimensão se deve ao facto de ter vencido além-fronteiras, dizia.

Mário Cesariny III FB

Foi perseguido pela sua homossexualidade e “suspeito de vagabundagem” pela Polícia Judiciária que segundo dizia era uma forma de rotularem as pessoas “esquisitas” e de as manterem sob vigilância. Pior do que ter estado preso foi a liberdade vigiada seguindo afirmava, no entanto a sua poesia está repleta de evocações sexuais que sempre encarou com frontalidade e coragem, em discurso de apelo pela liberdade de orientação sexual e pela igualdade de géneros. Apesar de todas as resistências, lutou como pode contra a estigmatização da população gay, mas nos últimos anos de vida, já em liberdade de expressão dizia-se contra as manifestações do orgulho gay, ou pelo menos que as considerava feias. Segundo ele os gays mascaram-se de forma ridícula em vez de saírem para a rua como “pessoas normais”, (nas suas palavras) o que ao contrário de angariar simpatia só serve para ofender.

Não era apesar de tudo um homem amargurado. Embora no princípio da carreira renegasse os prémios literários porque “são prémios por bem escrever e basicamente ridículos”, acabou por ser agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, em 2005, entregue pela Presidência da República, e aceitar o Grande Prémio EDP/2004, e o Prémio Vida Literária atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores.

Gostou da Autografia, um documentário sobre a sua vida realizado em 2004 por Miguel Gonçalves Mendes, que lhe deu muita alegria e que demonstrou que havia pessoas que sabiam dele.

Os seus amigos mais próximos desapareceram cedo: Cruzeiro Seixas foi para África em 1950, António Maria Lisboa morreu de tuberculose em 1953, Pedro Oom fechou-se em casa, no seu “abjecionismo”, Fernando José Francisco abandonara há muitos anos a arte pelo amor a uma mulher e resto do grupo dispersou-se; os cafés foram tomados pelos televisores e deixou de se poder conversar, desapareceram os velhos espaços tão familiares e as suas tertúlias.

Mário Cesariny de Vasconcelos morreu em 2006 com 83 anos. No seu velório choveu a cântaros e a sala no Palácio das Galveias teve pouca gente. Leram-se poemas por iniciativa de Manuel Rosa e quase não estiveram presentes artistas plásticos.

Mas ele já dissera que quando lia o colocavam num pedestal muito alto e o aplaudiam muito, para no fim o deixarem ir para casa sozinho.

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Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte   violar-nos   tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas   portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

                                Mário Cesariny

Em 2013 abriu em Alfama (Lisboa) A Casa da Liberdade – Mário Cesariny, dedicada a recolher e expor os espólios dos artistas surrealistas portugueses.

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