Juan Genovés

Juan Genovés: Olhar de Cima o Indivíduo no Meio das Massas

24 de julho, 2020 Off Por Artes & contextos
Modo Noturno

A quinze dias de fazer noventa anos, o pintor pedia á sua assistente, no hospital, papel e lápis para continuar a fazer o que mais preenchia a sua vida: Desenhar, imaginar, continuar a criar. O artista, que falecia a 15 de maio, tinha protagonizado com os seus três filhos,  uma grande exposição no Centro Niemeyer de Avilés no verão passado e estava a preparar uma grande mostra para a sua galeria, a Marlborough.

Morreu como tinha vivido: A sonhar com imagens. Foi isto que comunicaram os seus filhos, Pablo, Ana e Silvia, todos eles artistas e com os quais tinha tido o privilégio excecional de expor no Centro Niemeyer de Avilés.

Juan Genovés no seu estúdio, retrato de Leonardo Villela, cortesia da galeria Malborough.

Juan Genovés no seu atelier, foto de Leonardo Villela, cortesia da galeria Malborough.

 

Pensava que a vida autêntica está no trabalho, o trabalho criador, claro está, não no alienado e precarizado, que infelizmente é o mais generaliuzado. Fascinado, levantava-se às quatro da manhã e, sob o canto dos pássaros, começava a trabalhar. A prece secular de cada manhã era subir os 18 degraus que o conduziam ao seu atelier e por as mãos à obra. « É preciso investir o tempo no trabalho. Se és capaz de resistir um dia inteiro, dois, a pintar, então sim, és um pintor». Da mesma forma que outros artistas, devia sentir aquilo que formulou Rilke: «Sinto que trabalhar é viver sem morrer». É talvez uma das poucas formas de capturar o presente puro, o presente permanente.

Com o tempo e o esquecimento, a memória dilui-se e simplifica-se até limites insuspeitáveis.

Para muitos, Genovés é o autor de El abrazo (1976), sem dúvida a sua obra mais icónica, apesar de, em tempos, ter estado nos sótãos do Museu Reina Sofía. Executado a pedido da Junta Democrática, chegaram a ser distribuídos mais de 500.000 exemplares para pedir a libertação dos presos políticos, desta vez sem aspas, pois na altura, Espanha vivia sob os últimos suspiros de um regime não democrático. Ainda que não estivesse muito de acordo, pouco a pouco começou a identificar-se o chamado espírito da Transição com a imagem de El Abrazo, de tal modo que seria difícil encontrar uma obra de arte que ilustrasse de forma mais esclarecedora esse processo político e social.

El abrazo, por Juan Genovés, 1976, acrílico e serigrafia em tela, 151 x 201 cm, Madrid, Museu Nacional Reina Sofía.

El abrazo, por Juan Genovés, 1976, acrílico e serigrafia em tela, 151 x 201 cm, Madrid, Museu Nacional Reina Sofía.

 

Esta é uma das funções da arte, captar o espírito do tempo. Em palavras do crítico Juan Manuel Bonet, El abrazo é um «símbolo de reconciliação, palavra bonita e chave desse ciclo histórico, infelizmente hoje tão repudiado» Desde uma pequena perspetiva formal, pela composição assim como pelas tonalidades, parece que, consciente ou inconscientemente, pôde ser influenciada por El cuarto Estado (1901) de Giuseppe Pelliza da Volpedo. Mas, ao contrário dela, em El abrazo de Genovés não existem rostos, não existem identidades. É um abraço anónimo de todos e de qualquer um.
Surpreendido com o seu reconhecimento, Genovés declarou que «não havia uma casa de gente progressista onde não houvesse uma reprodução. Agora está no Congresso , porque o quadro é de todos os espanhóis, não meu. E tenho isso tão claro que cedi os direitos de reprodução à Amnistia Internacional».

É sabido que no Congresso se encontra uma reprodução, enquanto que o original está no Museu Reina Sofía. Recorda-me de Antonio Machado: Um poema é do seu autor até que o povo o canta, então não é de ninguém, se não do povo. Esta é uma das funções ético-políticas da arte: descobrir sob uma forma simbólica e representar o sentir e/ou o pensar dos cidadãos. E isto, talvez apenas possa ser levado a cabo por meio das linguagens das diferentes artes.

Albor, por Juan Genovés, 2018, acrílico sobre lienzo sobre tabla, 179,7 x 249,9 cm, cortesía de la galería Malborough.

Albor, por Juan Genovés, 2018, acrílico sobre tabla, 179,7 x 249,9 cm, cortesía de la galería Malborough.

 

Maravilhado com a aventura da obra, com os inesperados caminhos pelos quais transita uma peça e se encontra ou não com espectadores que a acolhem (talvez porque ela os acolheu prévia ou simultaneamente), Genovés acrescentava a respeito de El abrazo que « no dia em que nós, os espanhóis, deixarmos de falar de nós mesmos em termos de bons e maus, El abrazo completar-se-á». Não sei se chegaremos a tanto. Mas oxalá fossemos abandonando posturas tão sectárias e ideologicamente tendenciosas. De qualquer forma, as obras de arte são fontes de valores exemplares que encarnam ideais e possuem um horizonte utópico que abre caminhos que estão por vir.
No entanto, involuntariamente, se não refletirmos sobre a língua, recorremos a formas estereotipadas como «nós» e «eles», e levantamos muros e fronteiras que nos dividem e separam. Antonio Muñoz Molina falava a propósito de El abrazo de «uma reconquista da fraternidade». Talvez esta pudesse ser uma das perduráveis lições mudas desta obra: mais além das nossas diferenças, ao fim e ao cabo irredutíveis, atendamos ao que mantemos em comum, que é mais do que estamos habituados a imaginar.
À margem desta obra, se existe um tema recorrente da trajetória de Juan Genovés é a dialética e a tensão insolúvel entre o indivíduo e a multitude, as multitudes anónimas. Dir-se-ia que não existe indivíduo sem comunidade, mas que se este não se quiser ver arrastado e condenado pelas massas, tem que se educar e cultivar como indivíduo, pensar por si mesmo, como queria aquele filósofo ilustrado. Não obstante, é preciso persuadir as massas, ou influenciá-las bem para produzir mudanças sociais significativas, sempre com o risco invencível de não ser esbatido ou dissolvido nas massas.

Convergencia, por Juan Genovés, 1967, acrílico sobre tela, 29,8 x 25,1 cm, cortesia da galeria Malborough.

Convergencia, por Juan Genovés, 1967, acrílico sobre tela, 29,8 x 25,1 cm, cortesia da galeria Malborough.

 

Evidentemente, não devemos perder de vista o contexto histórico de Genovés. Durante a Guerra Civil (1936-1939) tem entre 6 e 9 anos. Depois sobreviverá durante toda a pós-guerra. Surpreende que uma pessoa luminosa e cheia de vida chegue a confessar que «o motor da minha vida foi o medo». Daí que um dos seus fantasmas, uma das suas obsessões, seja aquilo que mais cedo ou mais tarde se reflete no medo: a violência. Em 1968 Stuart Cooper filmou A Test of Violence, inspirado em obras de Genovés nas quais aparecem multitudes anónimas de manifestantes acurralados pela polícia ou sobrevoados por aviões.
Por outro lado, também não nos devemos esquecer que o comportamento das massas é um fenómeno, embora não exclusivo, mas determinante do século XX. Recordemos alguns dos ensaios filosóficos, antropológicos, psicológicos e sociológicos de maior alcance sobre este assunto: Psicologia das massas (1921), de Sigmund Freud, A Rebelião das Massas (1933), de José Ortega y Gasset, Massas Poder (1960), de Elías Canetti, e, a menor altura, A Multidão Solitária (1950), de David Riesman entre outros autores.
Posto isto, a originalidade de Genovés, pela que possui um estilo inconfundível, desses que se vê e reconhece à primeira vista, deve ter-se revoltado contra a frontalidade da tradição pictórica. Enfrenta o espaço da pintura desde um exercício de olhar de cima. «Porque é que ninguém se lembrou de colocar o seu olhar sob o ponto de vista de um pássaro?» É aquilo que ele fazia desde a varanda da sua casa de Perelló , em frente ao horizonte azul do Mediterrâneo, ou quando ía a Mestalla e tirava fotgrafias às multidões a aproximar-se dos estádios de futebol.

143, , por Juan Genovés, 1971, acrílico sobre tela, 150 x 210 cm, cortesia da galeria Malborough.

143, , por Juan Genovés, 1971, acrílico sobre tela, 150 x 210 cm, cortesia da galeria Malborough.

 

Se bem que na história da pintura esta perspetiva é invulgar (Penso agora em El mundo, de Ángeles Santos, ou Mapa Juan Carlos de la pequeña tierra, de Juan Carlos Savater ), no terreno da literatura e da filosofia este espaço conta com mais testemunhos. Pierre Hadot argumentou que «o olhar de cima» é um exercício que «consiste em recorrer com a imaginação à imensidade do espaço, em acompanhar o movimento dos astros, mas também em dirigir a visão para a terra para observar nela o comportamento dos humanos, fenómeno que é descrito com frequência, quer seja por Platão, por Epicuro, por Lucrécio ou até por Filo de Alexandria ou por Ovidio, ou por Marco Aurelio ou por Luciano.»
Insisti frequentemente nos meus textos que a arte, tal como a filosofia ou a poesia, não surge apenas de uma vocação para comunicar e reformar socialmente, como parece próprio da Ilustração e da Modernidade , mas sim de um exercício de alguém sobre sim mesmo a fim de aceder a outro modo de compreender, perceber e habitar o mundo. E este exercício deve ser recriado, de certa forma, no processo de receção.
Este «olhar de cima» serve para ampliarmos o campo de visão, desprendermo-nos pouco a pouco do ponto de vista egoísta, relativizar no sentido de valorizar adequadamente, procurar adquirir uma perspetiva tão universal como imparcial. Na obra de Genovés apreciamos as figuras humanas como formigas em massas, que é como alguns autores caricaturaram e criticaram a conduta humana, mas tratadas individualmente apesar das suas dimensões reduzidas.

Juan Genovés no seu estúdio, retrato de Leonardo Villela, cortesia da galeria Malborough.

Juan Genovés no seu atelier, foto de Leonardo Villela, cortesia da galeria Malborough.

 

Contudo é difícil capturar o significado das obras de Genovés: umas das caraterísticas do seu estilo é que estão abertas múltiplas interpretações. Além disso, possui caraterísticas do estilo pop, da fotografia, do cinema, por exemplo, de Einstein, bem como outros elementos geométricos e símbolos que poderiam ser classificados como orientais se, por acaso, não fossem universais. O seu trabalho foi, entretanto, reconhecido com a menção honrosa na Bienal de Veneza de 1966, no Prémio Nacional das Artes em 1984 ou na Medalha de Ouro ao Mérito nas Belas Artes, concedida pelo Ministério da Cultura em 2005.
Apesar de as multitudes anónimas que recorrem às suas pinturas, ele dizia que apenas dava ouvidos a ele mesmo. De novo, a dialética interminável entre o indivíduo e a multidão. Não deixou de exercer a crítica emancipadora: «Não se ensina a olhar porque não se quer que as pessoas aprendam a pensar. Consideram que a Cultura é um objeto decorativo, de luxo, quando é algo tão necessário como comer».

Tenho para mim que uma história ilustra de forma mais clara o caráter de uma pessoa do que toda uma bibliografia, porque a primeira é escolhida e a segunda provavelmente não. Nos anos cinquenta, Genovés e Adela apenas tinham dinheiro para sobreviver e um dia, um vizinho deu-lhes um ovo. Apesar da fome, concordaram que o utilizariam num quadro. Como o milagre dos pães e dos peixes, esse ovo teve a virtude de se regenerar no espaço infinito da pintura.

E Genovés teve o privilégio de viver a fazer aquilo que amava, a criar, a sonhar com imagens, que são espelho de nós mesmos e do mundo em que vivemos.

O artigo original foi publicado em @Descubrir el Arte
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Este artigo foi traduzido do original em castelhano por Inês Carvalho


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