A Caçadora e a Águia

A Caçadora e a Águia

29 de junho, 2017 0 Por Luisa Fresta
Modo Noturno

O tapete branco das estepes e as montanhas azuis no horizonte compõem uma paisagem de cortar o fôlego, ao mesmo tempo que a voz off da narradora Daisy Ridley nos situa na cordilheira de Altai, na Ásia Central. Antes do reino de Gengis Khan, tribos nómadas vagueavam por estas remotas montanhas, usando águias douradas para caçarem e sobreviverem ao rigor dos invernos. As técnicas de caça foram sendo transmitidas de geração em geração, de pais para filhos, segundo uma ritualização mantida ao longo dos séculos.

A relação do homem com a águia começa pela captura do animal e dura normalmente sete anos, após os quais a águia é devolvida ao seu estado selvagem. Homem, águia e cavalo formam um trio inseparável criando uma relação marcada pela certeza da finitude e pela interdependência; a atividade aqui retratada é atualmente muito mais uma afirmação da cultura local do que uma resposta às necessidades que estiveram na sua origem, pois hoje caça-se também com armas. O treino da águia é minucioso e difícil, assim como as condições em que os homens se deslocam sobre piso irregular e escorregadio, montando cavalos que se enterram na neve macia ou derrapam no gelo. Subtrair águias bebés ao seu ninho iludindo a vigilância da mãe exige o domínio do corpo e do espírito.

É uma profissão que implica coragem e respeito, como afirma um dos veteranos desta comunidade; desde a captura da águia ao treino diário, passando pelo estabelecimento de uma ligação única entre o caçador e a sua ave (quase que uma domesticação), e culminando com a caça de raposas, até ao momento final em que homem e ave se devem separar.

A Caçadora e a Águia

Aishopan é uma menina de 13 anos, rosada e de longas tranças, que captou a atenção do realizador Otto Bell neste documentário de excecional beleza. Ela poderá vir a tornar-se na primeira mulher, em muitas gerações, a assumir uma missão tradicionalmente masculina, pelo que exige de robustez física e coragem, características que elegem o género masculino como preferencial, numa sociedade em que o trabalho duro e arriscado é importante para a sobrevivência, sendo que às mulheres estão normalmente atribuídas outras tarefas relacionadas com a manutenção do lar e da família.

Aishopan rompe com este paradigma, contando com o apoio da sua família, sobretudo do seu pai e mentor, Nurgaiv, um caçador com águias muito respeitado, várias vezes premiado num festival da região, onde ela própria sonha apresentar-se.

“O que a criança vê no berço irá repetir quando crescer” – diz um ditado cazaque.

A mãe dá o seu testemunho: gostaria de passar mais tempo com a filha mas “escolher é um direito da mulher”.

Aishopan provém de uma família com uma longa tradição neste tipo de caça e não parece disposta a submeter-se à opinião dominante dos anciãos mais conservadores da região, que consideram que não deverá ser criado um precedente pois “as mulheres são mais fracas e frágeis”. Para estes homens, Aishopan terá que vencer várias provas, não apenas demonstrações públicas de perícia em festivais – que entendem sobretudo como uma exibição para turistas – mas também a prova maior, que é a caça à raposa, um testemunho real de competência e aptidão. Ainda assim o seu ceticismo está refém de um costume que não pretendem ver alterado, e a menina terá que usar de coragem e persistência, mas também o seu sorriso cândido absolutamente ímpar, bravura e doçura nas doses certas, para se impor como caçadora diante dos fazedores de opinião naquele meio de baixíssima densidade populacional. Ali a natureza é bela, agreste, avassaladora, proporcionando ao mesmo tempo rudes desafios diários; a opinião dos homens (muito poucos por metro quadrado), deve ser ouvida sempre com atenção, pois condensam sabedoria milenar em meio a preconceitos e pós-conceitos de valor variável.

A menina é uma aluna empenhada que estuda em regime de semi-internato, tal como os seus irmãos. Sonha tornar-se médica no futuro mas os seus projetos imediatos passam por ser uma caçadora com águias; brilham-lhe os olhos rasgados enquanto conta às colegas de escola as peripécias do treino das águias – é preciso valentia, disciplina e um dom especial que parece ter nascido com esta jovem cazaque, ela que entende que “uma menina pode fazer tanto como qualquer rapaz”.

Aishopan possui um estofo emocional e físico invulgar; oferece um testemunho claro de como a perseverança e a disciplina podem ser fatores preponderantes para se ser bem-sucedido.

A Caçadora e a Águia

Os céticos de hoje poderão tornar-se nos seus maiores admiradores de amanhã; enquanto no Festival Anual de Águias de Olgii (uma província cazaque da Mongólia) se apresentam dezenas de concorrentes, todos masculinos à exceção de Aishopan, de idades até aos 80 anos, a rapariga terá a oportunidade de chamar a atenção para as suas capacidades inatas e treinadas. Nesse certame avalia-se o traje do caçador, mas sobretudo a velocidade da águia, a qual tem que poisar no braço do seu dono depois de ser solta numa montanha; também é avaliada a rapidez da ave numa situação que simula a caça da raposa. Conseguirá ela fazer a diferença num festival desta dimensão e visibilidade? E depois disso, quantas raposas terá que caçar até que a sua mestria seja aceite unanimemente e sem reservas?

Talvez este documentário ajude a acordar em nós a determinação necessária para levarmos a cabo todos os pequenos projetos que vão ficando pelo caminho. Talvez não sejam mais difíceis do que escarpar e descer montanhas agarrada a uma corda, ou cavalgar dia e noite sobre piso gelado, com uma águia de sete quilos, apenas para fazer valer a igualdade, sendo diferente.

Estreia hoje.

A Caçadora e a Águia no IMDB


 

Luisa Fresta
Open Call Artes & contextos