Charlie Haden Liberation Music Orchestra

Charlie Haden e A Orquestra Libertadora

9 de fevereiro, 2017 0 Por Rui Manuel Sousa
Modo Noturno

Depois de Charlie Haden nos ter deixado em 2014 foi lançado no ano passado um novo disco da Charlie Haden Liberation Music Orchestra de seu nome Time/Life. O álbum tem como subtítulo Song for the Whales and Other Beings de certa forma a sublinhar o tema Song for the Whales o único que Haden assina neste disco. O disco abre e fecha com dois registos ao vivo, ainda com Haden no contrabaixo, gravados na última vez que Haden tocou ao vivo com a LMO. Carla Bley e a LMO gravaram parte deste disco no dia seguinte ao serviço fúnebre de Haden e assim de forma poética aproveitaram da melhor maneira possível a carga emocional do momento em que se despedem do seu fundador para deixar uma marca sentimental nas gravações.

A Orquestra Libertadora - Charlie Haden Liberation Music Orchestra

No final da década de 60 Charlie Haden fundou juntamente com Carla Bley o projecto LMO e desde o seu início manteve a característica principal da forte presença de instrumentos de sopro.  Neste domínio passaram pela LMO alguns nomes sonantes do jazz como Joe Lovano, Branford Marsalis ou Ray Anderson, apenas para citar alguns. O projeto gravou o seu primeiro disco em 69, lançado em 1970 pela etiqueta “Impulse!”. A inspiração para o disco Liberation Music Orchestra vem do interesse de Haden em algumas canções espanholas sobre o universo da guerra civil em Espanha, e três dessas canções tradicionais são incluídas no disco com arranjos da Carla Bley.

É neste primeiro disco que surge o tema Song for Ché escrito por Haden e que fez parte do reportório que o quarteto de Ornette Coleman trouxe a Portugal na sua participação no 1º Festival de Jazz de Cascais em 1971. Em plena primavera Marcelista o Festival de Jazz de Cascais era o segundo evento a acontecer em Portugal sem enquadramento no regime num curto período de tempo. No verão anterior inesperadamente surgiu o 1º Festival de Vilar de Mouros com Manfred Mann e Elton John em cartaz, e passados alguns meses em novembro, a nata do Jazz mundial veio pela primeira vez a Portugal, Miles Davis, Keith Jarrett, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, assim todos de uma assentada só!

Haden que veio como contrabaixista do quarteto de Coleman dedicou a sua canção Song for Ché aos movimentos de libertação de Angola, Moçambique e Guiné, e após o final do concerto foi detido pela Pide. Só foi libertado após intervenção do Adido Cultural dos Estados Unidos e não se livrou de um interrogatório por parte do FBI já depois de chegado aos Estados Unidos. Passados quase 20 anos, num dueto improvável, Charlie Haden viria a regravar Song for Ché com Carlos Paredes no disco de ambos, Dialogues de 1990.

Depois de uma longa pausa a LMO só em 1983 voltou a gravar. O novo disco The Ballad of the Fallen foi recebido da melhor forma e foi votado como melhor álbum do ano na Donw Beat Magazine, Haden e Bley foram premiados como o melhor contrabaixista e melhor compositor respetivamente. No segundo tema do disco, a canção meddley The Ballad of the Fallen, junta as seguintes musicas: um tema tradicional de El Salvador, Si Me Quieres Escribir, Grândola Vila Morena de José Afonso, El Pueblo Unido Jamás Será Vencido! de Sergio Ortega e o tema original Introduction to People de Carla Bley. Também neste disco ouvimos pela primeira vez o tema Silence de Charlie Haden que viria mais tarde a regravar com Chet Baker.

Em 1990 gravam Dream Keeper e voltam a receber o título de melhor álbum de jazz do ano. No plano individual Ray Anderson junta-se a Haden e Bley, que ganham o prémio de melhor trombonista, contrabaixista e compositor respectivamente. A inspiração na música tradicional sul-americana está de novo presente, talvez devido ao contínuo envolvimento político dos Estados Unidos com a América Latina e pela primeira vez surge a utilização da música africana fazendo parte do disco o tema/hino Nkosi Sikelel’i Afrika de Sontonga a lembrar-nos que o Apartheid ainda estava a funcionar em pleno.

Em 2005 lançam Not in Our Name um trabalho baseado exclusivamente na obra de compositores norte-americanos, arranjados num tom assumidamente triste com o intuito de deixar uma nota de descontentamento com algumas das posições de pressão que a América tomou com o resto do mundo e que de certo modo a isolou ainda mais. Canções tradicionais como Amazing Grace, Adagio de Samuel Barber, compositores como Antonín Dvořák, Pat Metheny e Bill Frisell desfilam na parada do descontentamento americano devido à forma como o mundo começa a olhar para a América.

Time/Life chega-nos numa altura em que a obra conceptual da LMO liderada por Haden e Bley ao longo dos anos está mais actual do que nunca, temas como a fricção entre os Estados Unidos e os povos da américa latina ou a forma como é conduzida a sua política externa, estão hoje na maioria dos cabeçalhos informativos. Time/Life denota também uma declarada preocupação ambiental que é outro ponto de interesse fulcral nos dias de hoje.

Eis o alinhamento e os participantes em Time/Life:

1 – “Blue in Green” (Miles Davis) – 8:16
2 – “Time/Life” (Carla Bley) – 14:19
3 – “Silent Spring” (Carla Bley) – 11:43
4 – “Útviklingssang” (Carla Bley) – 7:55
5 – “Song for the Whales” (Charlie Haden) – 11:43

Músicos
Charlie Haden (faixas 1 & 5), Steve Swallow (faixas 2-4) – Baixo, Contrabaixo
Carla Bley – Piano, Arranjos e Direcção
Seneca Black, Michael Rodriguez – Trompete
Vincent Chancey – Trompa francesa
Curtis Fowlkes – Trombone
Joseph Daley – Tuba
Loren Stillman – Saxofone alto
Chris Cheek, Tony Malaby –  Saxofone tenor
Steve Cardenas – Guitarra
Matt Wilson – Bateria


 

 

Rui Manuel Sousa
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