THE TROUBLE WITH BEING BORN

THE TROUBLE WITH BEING BORN – MotelX

9 de setembro, 2020 0 Por Laura Carvalho Torres
Modo Noturno

THE TROUBLE WITH BEING BORN, de Sandra Wollner

 

No segundo dia de festival, decidimos analisar uma das longas metragens em competição, realizada por uma mulher. Tal como havíamos referido no artigo dedicado à Press Premiere do MotelX, esta edição conta com uma forte participação feminina na realização de 5 dos 10 filmes em competição para a melhor longa metragem internacional. Sandra Wollner, que havia realizado The Impossible Picture (2016), o seu primeiro feature film, conduz-nos numa viagem complexa que desperta os sentidos e hasteia diversas red-flags presentes na sociedade. A austríaca de 37 anos trouxe a Lisboa um dos filmes mais controversos que passou nos diversos festivais de cinema internacionais: a imagética forte e sem filtros fez com que em Melbourne, Austrália, a exibição do filme fosse impedida.

A história é desde logo orientada para uma comparação muito desconfortável: o humano ou o robô. A trama prima por excelentes componentes o visual e o sonoro, num íman, que não permitie descolar a atenção do ecrã.

Somos postos perante a história de Elli (Jana Mckinnon) narrada pela própria e do seu pai, Georg (Dominic Warta), que numa belíssima casa no meio da floresta, linhas muito modernas, amplos vidros, uma piscina inserida numa paisagem bucólica, passam os dias juntos,

A pequena Elli adora o pai, passar os dias com ele na piscina, e do seu cheiro a cigarros e protetor solar. Também através do seu monólogo, fica subentendido que a sua mãe havia falecido, e que este pai e filha eram inseparáveis.

The trouble with being born

The trouble with being born, Ellie (Jana Mckinnon) e Georg (Dominic Warta)

Num final de tarde, Georg apercebe-se que Elli está a boiar na piscina e leva-a rapidamente para casa, onde o vemos  a reanimá-la, através de um tablet, repondo assim os seus sinais vitais.

Elli, um robô perfeitamente humanizado, falava, comunicava, mexia-se de uma forma natural, mas o filme direciona-nos para uma realidade, infelizmente, não tão atípica, quanto deveria ser. Através de uma série de insinuações corporais, expressões verbais e até, momentos íntimos e gráficos percebemos que Georg violava a filha robô, e para tal programáva-a de forma a torná-la sensual e atrativa.

Um dos momentos visualmente mais violentos, é aquele em que George decide desmontar, literalmente, Elli, retirando-lhe a língua e o órgão genital, e lava-o, com uma enorme naturalidade. O relacionamento de ambos tinha como base uma relação de posse/dependência/rotina. Estes três elementos faziam com que ambos estivessem presos a um círculo vicioso; neste caso, Georg, criou este mundo para si, enquanto que Elli fora literalmente programada para nele viver. As suas palavras, elogios, desejos, foram estruturadas pelo seu criador, um pai que investia numa relação doentia com a filha, que apesar de ser um robô, figurava a mesma.

Numa cena esclarecedora a realizadora mostra-nos Elli, não o robô, mas sim a menina, pré-adolescente, que estava a jogar um jogo de sedução com o pai, na piscina. Esta, foi a mesma menina que fugiu de casa e desapareceu. Elli, o robô, foi o preenchimento do vazio, para a obsessão e doença do seu pai, que sem a sua filha, nem os vícios que para com ela tinha, não poderia viver.

Um dia Elli, o robô sai de casa a meio da noite, deixando Georg perplexo, e com uma enorme sensação de deja vú.

Elli, é encontrada na estrada, por Toni (Simon Hatzl) que lhe abre a porta do carro e a convida a entrar, e assim que ela o faz, através do uso de uma aplicação telefónica, Toni desliga-a. Achado não é roubado. A famosa expressão popular é perfeitamente aplicável neste caso. Tal como se tivesse encontrado um dispositivo eletrónico, ao acaso, e tomasse posse dele. A forma e a rapidez com que descartamos objetos, e até pessoas, atualmente, é muito bem representada e apresentada neste filme. Somos obrigados a confrontar-nos com os nossos próprios atos do quotidiano, e é impossível fugir.

The trouble with being born, Ellie (Jana Mckinnon)

The trouble with being born, Ellie (Jana Mckinnon)

Elli, o robô, é levada por Toni, até casa da sua mãe, a Sra. Sckikowa (Ingrid Burkhard). No entanto, esta não simpatiza com a rapariga, obrigando o filho a transformá-la num rapaz: Elli é agora, Emill. Emill substitui alguém que Sckikowa havia perdido, no passado. A voz e as feições mudaram, e o cabelo encurtou. Tudo digitalmente programado de modo a colmatar a lacuna que vivia em Sckikowa que rapidamente se afeiçoou ao “rapaz”.

The trouble with being born, Emil (Jana Mckinnon)

The trouble with being born, Emil (Jana Mckinnon)

Existem dois períodos temporais: o atual, 10 anos, (o tempo passado desde o desaparecimento de Elli, a humana) e 60 anos (desde a morte de Emill, agora figurado na transformada Elli, o robô). Assim, o mesmo robô preencheu dois vazios opostos um do outro. Tal como a tecnologia, este robô transgénero veio resolver, nem que fosse momentaneamente, os espaços em branco, os momentos mortos, na vida de Georg e Sckikowa.

O fim, deixa-nos boquiabertos.

Durante 1h e 34 minutos, estamos em mundos paralelos, mas com duras realidades representadas. O crescimento da tecnologia é imparável, tal como a adição à mesma. Os seres humanos estão a substituir a relações pessoais, ocupando-se de frutos tecnológicos, que não os julgam, nem criticam, que não os colocam à prova ou numa situação de desconforto. O conforto que de lá advém gera impessoalidade e falta de empatia. Falta essa, que também está patente noutro cenário, uma autêntica red-flag: o abandono de idosos e a solidão. Esta situação é recorrente, e  a Sra. Sckikowa é o exemplo retratado, que encontrou companhia, amor e carinho em Emill, o robô. No entanto, por mais programáveis que sejam, estes dispositivos não têm algo tão pessoal como emoções, necessárias para a vida humana. Essa lacuna, mostrou-se fatal, no filme.

O abuso sexual, neste caso, infantil, é o tema base, aqui representado de uma forma bastante crua.

Um filme bem estruturado, onde se pode destacar a qualidade fotográfica e o som com uma forte banda sonora, apesar de ter um pace demasiado lento, e que perde em parte pelo fraco guião, poderia ter sido explorado através de outras dinâmicas. Não deixa, todavia, de ser um filme que nos prende e nos deixa, sobretudo, numa profunda reflexão.

Leia as nossas críticas aos filmes MotelX 14:



Laura Carvalho Torres
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