The Straight Story - Uma História Simples

Uma História Simples

8 de agosto, 2014 0 Por Artes & contextos

 

É difícil escolher uma cor para começar a “sujar” esta tela, quase tanto como escolher uma gota de água num lago.

The Straight StoryAs obras que o tempo poupa, como as gotas, submergem a caminho da eternidade, a caminho do estado em que o tempo deixa de contar.

O tempo reserva lugares aos homens e às obras que se distinguem, e resguarda-os do desgaste dos tempos, mas o mesmo tempo que coloca as peças, as desloca em testes de atualização de gosto e provas de resistência Os cânones da memória sofrem atualizações por eventuais cedências do passado às ilusões da moda e as obras que vão subsistindo podem mesmo ser as mais simples. Tão simples que parecem frágeis e que nos levam a questionar como será possível a alguns, dizer tanto com tão pouco, ou esse pouco ser tão importante.

Uma História Simples (The Straight Story) é uma dessas obras e David Lynch é um desses “alguns”.

Um homem de 73 anos, sem saúde nem carta de condução, fez de um corta-relva um meio de transporte e percorreu nele 317 milhas (cerca de 510 Km) para visitar o irmão com 75 que tivera um ataque cardíaco e com o qual mantinha uma zanga há dez anos. Isto é a história.

Alvin Straight decidiu partir para esta viagem, antes de saber como, porque não tinha licença de condução e queria, precisava de fazê-la sozinho. Fez a viagem porque tinha que a fazer, como dizia quando o questionavam, a propósito das dificuldades que encontraria, dizia-o como se o dissesse a si próprio e fez da viagem, um ato de contrição. Preparou um corta-relva para o transportar com um reboque atrelado, e aquele avariou ao fim de alguns quilómetros, o que o obrigou a regressar. É comovente a tristeza que causa aos amigos o seu regresso precipitado, aos mesmos amigos que antes o tentaram demover da proeza. Adquiriu outro aparelho e partiu tão devagar quanto o tempo a passar na sua solidão ao lado da filha em Laurens à noite a olhar as estrelas ou a chuva e os relâmpagos.

A filha evidencia uma ligeira debilidade mental e fá-lo sorrir com as suas pequenas trapalhadas, mas a ternura e a cumplicidade entre ambos revela apenas dois solitários acompanhados, que partilham silêncios e dores, como a amargura comum de à filha terem retirado os filhos – “por ela ser assim”, e que à noite “vê” a brincar no jardim.

Saiu devagar, sozinho e em silêncio, como fez todo o percurso. Viajou ao ritmo das debulhadoras nos campos ao longo de milharais intermináveis, e com o horizonte sempre tão longe, escondido pelo por-do-sol ou debaixo de nuvens cinzentas com chuva e trovoada. Acampou na berma da estrada sentado a uma fogueira preenchendo o tempo com silêncios estrondosos. Conviveu ocasionalmente e foi confessor, conselheiro e também se confessou, mas a coreografia insistia em afundar-se em solidão. Deu lições de vida sem perguntas nem indiscrições: recebeu um padre que se aproximou do seu acampamento noturno, e falou sobre a vida com o irmão; aproximou-se de um grupo de jovens ciclistas no seu acampamento, e falou sobre a velhice; assistiu em silêncio à aflição de uma senhora em desespero neurótico com a culpa de ter atropelado um veado. Sempre os veados em David Lynch.

Acolheu e deu de comer a uma jovem grávida fugida de casa com medo da reação dos pais. Falou-lhe – embora sempre que fala, parece que fala para si próprio – dos catorze filhos que a mulher teve dos quais perdeu sete, mas para ele “vingaram” sete; da dureza da vida e da amizade com o irmão, juntou-lhe uma pequena parábola e a jovem na manhã seguinte regressara a casa.

Ia remindo os seus pecados fazendo da culpa o seu norte. A culpa de ter deixado um neto queimar-se num incêndio, de ter matado acidentalmente um amigo na guerra, do afastamento do irmão, por motivos que “já não interessam” e pelo álcool, e a amargura da velhice. Engoliu o orgulho e esperou que o irmão fizesse o mesmo e que não fosse tarde. Não diz mais do que precisa e afirma que da vida viu tudo, e aprendeu a “separar o trigo do joio” e a “não ligar a coisas sem importância”. Misturava a serenidade com a tristeza

Num bar, conversou com um seu igual marcado pela guerra e abriu a alma sobre a angústia da morte e o mal que o álcool lhe fez no passado. Apesar de tudo, quando acompanhado parece fora do seu elemento. A solidão desmascara-se sempre e a interioridade exposta, provocada pelos ambientes e, ou pela música (sublime) ou pela sua ausência, são cúmplices numa linguagem fortíssima de expressões silenciosas e cruas.

A câmara de Lynch, tão lenta como a história e tão serena como a paisagem ou como os olhos de Richard Farnsworth, (na sua última viagem) dá-nos pormenores preguiçosos como a roda do reboque e planos aéreos de perder de vista, sempre lentamente e quase sem sobressaltos. Insiste em grandes planos das rodas do reboque ou do corta relva, sempre mostradas a rodar em sentido retrógrado como se se tratasse de um relógio a andar ao contrário e o mesmo quase à chegada, com as pás de um moinho de vento.

O veículo avariou a 60 milhas do destino e foi acolhido no jardim de uma família; onde Danny o seu hospitaleiro o tentou dissuadir e até se ofereceu para o levar de carro. Recusou porque tinha que fazer aquela viagem sozinho.

Quando retomou o caminho já na cidade, percebemos que está a chegar e que tanto queremos como seus adeptos, que cumpra o seu desígnio, como queremos continuar a ouvir as suas histórias, iluminadas pelo seu olhar cândido

Os dramas passeiam por esta história sem ruído, à procura de uma justificação sem choque, com culpas à espera do esquecimento sem choros nem lamúrias. A teimosia, e a perseverança equilibradas pela serenidade que Alvin aparenta, quase fazem esquecer as angústias que carrega e o medo que tem de não ser aceite pelo irmão, ao qual espera chegar livre dos seus pecados e amarguras, ou conseguir com ele libertar os demónios que o mortificam para com ele, como há muitos anos se sentar a olhar para as estrelas.


 

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