Bamako Encounters — African Biennale of Photography

“Streams of Consciousness”: Bamako Encounters — Bienal Africana de Fotografia

28 de janeiro, 2020 0 Por Artes & contextos
Modo Noturno

Imagem em destaque: Khalil Nemmaoui, Air Twelve Land, 2019

Bamako Encounters

Nas palavras do fotojornalista Roger Anis, as praias de um país revelam a sua história1. Na sua série fotográfica Shaabi Beaches (2017)), Anis retrata as famílias do Cairo na praia de Alexandria enquanto realizam desejos contemporâneos, como possuir, pertencer e identificar. A praia é um elemento recorrente na vigésima quinta edição dos Encontros de Bamako, intitulada Streams of Consciousness: A Concatenation of Dividuals.

Bamako Encounters—African Biennale of Photography

Roger Anis, Shaabi Beaches, 2017

Num mar de dados, ou imagens abundantes, a tentativa curatorial de repensar a fotografia é realmente oportuna. Sugerindo que não é um instante, um “momento decisivo”, ou uma técnica particular, o diretor artístico Bonaventure Soh Bejeng Ndikung imagina a fotografia como duradoura – uma corrente de consciência que ultrapassa o domínio ocular. Esta abordagem sinestésica desperta todas as sensações que o evento fotográfico pode implicar – da destruição violenta à reprodução cuidadosa – ou, como sugere a escritora Tina Campt na sua palestra em vídeo durante os dias de abertura da bienal, “as vibrações sonoras da fotografia”2. 

Ao aproximarmo-nos de tais meios, precisamos de escutar. Na verdade, o som move-se em ondas como os corpos de água fazem, mas qual é então a orla do som?

Bamako Encounters — African Biennale of Photography

Emmanuele Andrianjafy, San Titre (da série Nothing’s in Vain 2014-2016) 2016

A vigésima quinta edição dos Bamako Encounters abre precisamente nesse ponto, entre o perceptível e o imperceptível – à beira-mar do carácter de sepulcro do mar e a “encarnação da recepção na costa”3. No seu poema “Gáttehis gáddi” (Shoreless shore) de 1980, o padre Sami Paulus Utsis descreve a expropriação da memória juntamente com a sua terra, pois as margens do rio Lule foram inundadas por reservas hidroeléctricas para electrificar o sul da Suécia.
A certa altura, durante os dias iniciais da bienal, um visitante confundiu a palavra titular ” fluxo” com ” inundação”, alterando subconscientemente o título original de uma forma bastante pertinente.
A consciência inundada do século XXI causa falta de foco e desordem de atenção, assim como o domínio contínuo da França no Mali, visível tanto no financiamento cultural como na água engarrafada distribuída pela Evian. Como lidar com tais inundações sem fim, que de facto provocam a erosão de todos os recursos materiais que a memória pressupõe??
Bamako Encounters — African Biennale of Photography

Jodi Bieber, #1 (Tshepang Dumelakgosi) 2016-2017

No vídeo de Dickonet/Dicko Traroré, Djoliba, Fleuve de Niger (2019), uma personagem feminina interpretada pela bailarina maliana Fatoumata Bagayoko – é encarnada pelo espírito djinn que a sacode em movimentos arítmicos, imersa na água do Niger e na sua margem. A sua resposta afectiva funde-se com o descontentamento de longa data do rio com os humanos, explica Traroré.

O rio vivo que sacode a sua antiga repressão serve na realidade como uma boa metáfora para a bienal em geral, cujos “riachos” não fluem apenas em ordem. Assim como a África não é apenas um continente, mas também uma relação, uma diáspora, uma história e uma utopia, a fotografia já não é uma técnica nua. Assim, as obras expostas contestam tanto o meio individual como o autor em si, repensando profundamente os vinte e cinco anos de história da própria bienal.

Bamako Encounters — African Biennale of Photography

Fanyana-Hlabangane, Poolside Boy (da série Silent Conversations)

Vários trabalhos investigam questões de arquivo do século passado: o Grupo Otolith, em Nucleus of the Great Union (2016), parte do esquecido arquivo fotográfico da viagem jornalística de Richard Wright ao Gana no momento da sua independência. Em 1954 Wright publicou Black Power: A Record of Reactions in a Land of Pathos, na Convenção do Partido Popular de Kwame Nkrumah, o primeiro partido socialista de massas da África Ocidental, ao mesmo tempo que fazia campanha pela independência do domínio britânico.

Embora o livro de Wright tenha sido amplamente discutido, as fotografias que o acompanham foram praticamente esquecidas. No seu vídeo e instalação no local, o Grupo Otolith assume a difícil tarefa de voltar aos eventos fotográficos do jornalismo de Wright quando ele chegou de França como parte da diáspora africana.

Como é que ele respondeu, e que perguntas fez? O ensaio em vídeo inclui fragmentos do poema Negus, do poeta Caribenho Kamu Brathwaite, de 1969 – o período inicial da independência do Caribe.

Uma década antes, Brathwaite tinha vivido a luta pela independência no Gana, e no vídeo, as batidas das suas palavras funcionam como cortes na montagem cinematográfica, instigando a acção para lá do enquadramento:

it is not                                                                                                                                 
it is not
it is not enough
it is not enough to be free
of the whips, principalities and powers where is your kingdom of the Word?

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Emmanuele Andrianjafy San Titre (da série Nothing’s in Vain, 2014-2016), 2016

Um desvio temporal semelhante aparece no filme Sometimes It Was Beautiful (2019), de Christian Nyampeta, no qual ele relê a produção do cineasta sueco Sven Nykvist no Congo, In the Footsteps of the Witch Doctor (1948-52). Nykvist estava obcecado com a transição da luz para a escuridão, encenando estereótipos para imprimir “autenticidade”.

O filme de Nyampeta gira em torno de uma exibição encenada do filme de Nykvist num cinema em Estocolmo, onde o próprio Nykvist surge no corpo da crítica de arte Kim West – enquanto Andrei Tarkovsky, Yasser Arafat, Leela Gandhi, Rigoberta Menchú e Robert Mugabe (para referir apenas alguns) são encarnados por outros parceiros de conversa suecos de Nyampeta.  Sentados em frente ao grande ecrã, discutem o filme de 70 anos a partir de uma perspectiva contemporânea, insistindo na consequência que tais acções cinematográficas e fotográficas transportam até hoje.

No arquivo de Bouba Touré de Somankidi Coura, a desapropriação documental é trocada pela interdependência reprodutiva. Somankidi Coura é uma cooperativa agrícola no rio Senegal que Touré cofundou em 1977 com outros trabalhadores do Senegal, Mali, Mauritânia, Guiné e Burkina Faso.

Depois de uma luta intensa pelos direitos dos trabalhadores imigrantes em França, Touré regressou à sua terra natal, o Mali, na década de 70, documentando frequentemente a actividade política nos dois continentes. Instaladas em outdoors no pátio do Palácio da Cultura em Bamako, as fotografias evocam o aquilo a que Touré chamou em 1980 “An African Conscience.”4

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Andrew Tshabangu, Long Road, 2018

E o que implicaria hoje tal consciência? Ao contrário de imagens em movimento ou arquivos transmitidos em quantidade, o projeto Faces of Africa (2018) de Keli Safia Maksud destila o movimento ocular na vibração inerente às imagens estáticas.

O trabalho vai buscar o título a uma série de documentários do YouTube, que Maksud viu no smartphone. Ao digitalizar as capturas de ecrã do dispositivo, os momentos cinematográficos são distorcidos em píxeis difusos que parecem fundir-se num pântano cinzento. É de facto a margem do rio. Um movimento semelhante é feito por Maxime Jean-Babtiste, que em Nou voix (2018) retarda uma cena no filme de Alain Maline, Jean Galmot, Aventurier, de 1990.

Nele, o pai do artista interpreta um dos vários guineenses acusados em tribunal após tumultos provocados por Jean Galmot. Ao saltarem de alegria por terem sido absolvidos, os seus corpos pixelizados escapam aos enquadramentos rígidos das imagens em câmara lenta.

Bamako Encounters — African Biennale of Photography

Armet Francis, Angela Davis at the Keskidee Centre, 1975

Durante quase uma década, a Invisible Borders Trans African Photography Organisation tem viajado pelo continente africano para fotografar as paisagens e as situações em mudança por onde passam.

A sua oitava viagem – de Lagos, Nigéria, a Maputo, Moçambique – é apresentada em três canais de imagens em movimento e estáticas, acompanhadas de notas poéticas escritas na viagem.

Enfatizando as implicações geopolíticas da consciência, o coletivo parte das palavras “Eu estou onde penso” – uma afirmação diretamente ligada à pergunta de Rahima Gambo “Pode uma caminhada responder a isto?

No seu vídeo A Walk (2018), são recolhidos vestígios fotográficos das muitas caminhadas empreendidas por Gambo enquanto investigava mulheres bombistas suicidas no nordeste da Nigéria.

Numa performance de acompanhamento durante os dias de abertura, Gambo envolveu a sua projeção de vídeo com linhas díspares pintadas em tinta preta espessa diretamente na parede branca, cada linha terminando numa caixa menor perfurada por três pequenas setas apontando para fora, a forma rígida da moldura cinematográfica aberta com novos e ambiciosos movimentos.

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Vista da Instalação – Museu Nacional do Mali – Rencontres de Bamako – Scénographie: Cheick Diallo ©Rencontres de Bamako

Em AmaHubo (2018) de Buhlebezwe Siwani, também a persistência coreográfica é essencial. Tanto na performance ao vivo como na instalação de vídeo de dois canais, realizam-se rituais colectivos em resposta à mutação extractiva da terra que impede o desenvolvimento de qualquer memória herdada.

Misturando sal e terra – o mar e a sua costa – Siwani realiza estados de tempo alternativos, nos quais o evento fotográfico não só personifica as sensações como garante que elas irão perdurar. As manchas de sal absorvidas nas roupas da audiência sublinham a necessidade comummente partilhada de tais futuros.

 

1 Bamako Encounters—African Biennale of Photography, exh. cat. (Berlin: Archive Books, 2019), 148.
2 Tina Camp, palestra online como parte do programa Savvy Contemporary for Bamako Encounters, “EXCLAMATING, STILL! ON THE NOISE OF IMAGES / EXCLAMANT, TOUJOURS ! SUR LE BRUIT DES IMAGES,” no Bamako National Museum, 2 de dezembro de 2019.
3 Christian Nyampeta em conversa com Aziza Harmel (2019), in Bamako Encounters—African Biennale of Photography, exh. cat. (Berlin: Archive Books, 2019), 145.
4 Raphael Grisley em colaboração com Bouba Touré, Sowing Somankidi Coura: A Generative Archive (Berlin: Archive Books, 2017), 9.

 

O artigo original “Streams of Consciousness”: Bamako Encounters—African Biennale of Photography foi publicado @Mousse Magazine
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Este artigo foi traduzido do original em inglês por Redação Artes & contextos

 

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