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O Poder do Cão Uma Análise Crítica

5 de abril, 2022 0 Por António Lourenço

O Poder do Cão

 

 

O Romance do escritor norte americano Thomas Savage (1915-2003)  The Power of DogO Poder do Cão, deu origem ao filme, com o mesmo nome, da vencedora do Oscar 2022 para melhor realização, da Realizadora Jane Campion.

A sua inspiração, conduz-nos , a temas como o machismo tóxico, à sociopatia, ao  não desvelar, as verdadeiras tendências escondidas, dignos de uma interpretação inserida na teoria psicanalítica e até à Bíblia, no seu Salmo 22.

O escritor viveu num rancho até aos 22 anos, mas nunca se sentiu integrado nessa vida rural. Numa entrevista a uma rádio neozelandesa, a realizadora afirmou que um dos seus primeiros lemas, foi  que que os mais ferozes, deviam ser domados. Depois disso exerceu várias profissões desde, soldador, mediador de seguros, canalizador a professor de inglês. Casou aos 24 anos com Elizabeth Fitzgerald e veio a ser uma poderosa “voz” na literatura dos Estados Unidos, do século XX, escrevendo romances e poemas, e baseando as suas histórias na suas experiências vividas.

 

O Poder do Cão

George (Jesse Plemons) e Phil (Benedict Cumberbatch) em O Poder do Cão (2021). Foto © IMDB

 

Passado no Montana, EUA em 1925, embora filmado nas belíssimas paisagens da Nova Zelândia, o enredo do filme centra-se nos irmãos Phil (Benedict Cumberbatch) e George, (Jess Plemons) dois irmãos fazendeiros ricos que vivem juntos.

A harmonia entre ambos é quebrada quando George casa com Rose (Kirsten Dunst), viúva e mãe do jovem Peter (Kodi Smit-Mcphee), jovem que vai estabelecer uma aproximação a Phil quando o aquele, escondido nos arbustos, observa o cowboy mais velho a tomar banho num lago. Mais tarde Phil ensina Peter a entrelaçar corda em pele de vaca que viria a ser fundamental no enredo da narrativa.

Peter, magro e com aspeto afeminado servia no restaurante de Rose a sua mãe e os vaqueiros, trabalhadores gozavam com ele ao passar por eles, ouve-se muitas risadas e chamam-lhe freak.

 

Peter (Kodi Smit-McPhee) e Phil (Benedict Cumberbatch) em O Poder do Cão (2021)

Phil (Benedict Cumberbatch) e Peter (Kodi Smit-McPhee) em O Poder do Cão  (2021). Foto © IMDB

 

Por outro lado, Phil sob uma máscara de cowboy-macho, é misógino e odeia Rose, desprezando-a  até com o olhar e refere-se diversas vezes a um seu mentor chamado Bronco Henry, mas que nunca chegamos a conhecer. Conta a Peter um episódio que se passou com aquele e que o obcecou profundamente, e segundo o qual, ele lhe tinha salvado a vida, aconchegando-o ao seu corpo, num saco-cama. Peter perguntou-lhe se estavam nus, mas Phil não respondeu. A sua máscara esconde o segredo da sua vida.

Phil trata Rose, em constante bullying e leva-a, uma mulher extremamente sensível, à depressão e ao alcoolismo. Com desdém, usa uma das flores de papel que Peter gostava de fazer e pega-lhe fogo, para acender o cigarro.

Existem muitos silêncios durante filme, dando-nos sensaçãde uma certa tensãda lenta passagem do tempo nas paisagens desérticas montanhosas da Nova Zelândia.

Entretanto Peter para quem a defesa da mãe é crucial conta que o pai, lhe dizia: ´Os obstáculos temos de afastá-los’ como também diz que homem que não defende a sua mãe não o é. Então decide livrar-se de Phil, pois estudou medicina e sabe o que é o Antrax, assim contamina a água com o sangue de uma vaca morta, onde Phil irá lavar uma ferida da mão.

 

Rose (Kirsten Dunst) em O Poder do Cão (2021)

Rose (Kirsten Dunst) em O Poder do Cão  (2021), Foto © IMDB

 

Para decifrar, os mistérios da obra, recorremos, por exemplo à Bíblia, que no salmo 22-20 diz: ‘Livra a minha alma da Espada, livra a minha querida do poder do cão’. Nesta narrativa podemos interpretar, a metáfora: livra a minha alma dos ensinamentos de Phil, livra a minha mãe do poder do cão, a querida é a mãe de Peter, o jovem que irá vingar-se do bullying que Phil (o cão) exerce sobre sua mãe.

 

Peter (Kodi Smit-McPhee) e Phil (Benedict Cumberbatch) em O Poder do Cão (2021)

Peter (Kodi Smit-McPhee) em O Poder do Cão  (2021), Foto © IMDB

 

Sigmund Freud , elaborou o chamado complexo de castração, baseando-se na tragédia de Sófocles, Rei Édipo, em que o filho mata o pai para casar com a mãe, sendo o perigo de se enamorar da mãe, a castração, esse estágio fálico, aparece na criança, entre os 3 e 6 anos.

Ora Peter mata o seu pai simbólico Phil, para libertar a mãe do seu sofrimento.

O Filme com a sua ocultação, e mistério vai-nos dando elementos de decifração,  da complexidade humana, fazendo-nos pensar e buscar as razões mais obscuras, que levam os seres humanos a comportar-se.


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Melómano e cinéfilo inveterado com décadas a ver e ouvir o que de melhor foi e é Produzido e Realizado no Cinema, Teatro e Canto Lírico.

Jaime Roriz Advogados Artes & contextos