Basse Masse (The Lodger) Artes & contextos

The Lodger, de Baptiste Drapeau
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8 de setembro, 2021 0 Por Laura Carvalho Torres
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Também o tempo torna tudo relativo

Este artigo foi inicialmente publicado há mais de 1 ano, o que em 'Tempo Internet' é bastante. Pode estar desatualizado.

The Lodger

 

O primeiro dia da 15ª edição do MOTELX, foi, como habitual, um sucesso.

Lisboa renovou a sua aura terrorífica, e trouxe geeks, e outros mais ou menos aficionados e muitos curiosos, ao Cinema São Jorge. Com a novidade de um lounge com DJ set, boa música e imperiais deram um bom pontapé de saída para 7 dias de festival. Mas, claro, que os filmes são as estrelas, e indubitavelmente a antestreia de The Green Knight, de David Lowery, foi o momento alto da noite, numa sala absolutamente esgotada há dias, trazendo-nos mais um dos grandes da A24, novamente. O Artes & contextos por lá esteve, e assistimos com muito entusiasmo ao desenlaçar de um excelente primeiro dia de MOTELX.

O primeiro filme a ser exibido, foi o mesmo que nos havia sido mostrado na Press Premiere, The Lodger, 2020, (Messe Basse), de Baptiste Drapeau. Sendo a sua primeira longa-metragem, somos presenteados com duas das grandes atrizes do cinema francês contemporâneo: Alice Isaaz (Julie) e Jacqueline Bisset (Elizabeth).

 

Alice Isaaz (Julie) e Jacqueline Bisset (Elizabeth), The Lodger (2020)

Alice Isaaz (Julie) e Jacqueline Bisset (Elizabeth), The Lodger (2020)

 

A história, passada numa cidade francesa, conta-nos a ida de uma jovem Julie, estudante de enfermagem, para a casa de um casal de idosos, onde iria residir gratuitamente em troca de realizar algumas lides domésticas. Nos primeiros momentos da trama, somos apenas apresentados a Elizabeth, a dona da casa.

Elegante e bem-falante, parece uma mulher doce e calma que quer colocar Julie confortável com o seu novo lar. Mas, alia também a constante preocupação com o seu marido, Victor (François-Dominique Blin), que, segundo os seus relatos, aparenta ser frágil e com necessidade de supervisão.

Não foi necessário passar muito tempo até percebermos que Victor já não está vivo, e a sua presença não é real, e que Elizabeth se utiliza de objetos e roupas para mimetizar a figura do seu falecido marido. Para Julie, a situação é confusa, e algo assustadora, não obstante rapidamente começa a integrar este jogo e a ficar fascinada com a sua idealização física, mental e sensorial de Victor. Para ela, tudo se resumia a fotografias, relatos, cartas, objetos, sons, que a faziam criar a figura de Victor na sua cabeça e a agigantar a sensação da sua presença em casa.

 

Alice Isaaz (Julie), The Lodger (2020)

Alice Isaaz (Julie), The Lodger (2020)

 

Num jogo que é claramente perigoso, existem cada vez mais mistérios a serem desvendados, e outros por explicar, mas Julie, não se afasta, e pelo contrário, faz de tudo para ficar mais próxima daquele que é a sua idealização do amor perfeito.

O filme é composto por um suspense generalizado, que o percorre por inteiro, tendo vários momentos de climax feitos através de jump scares ou revelações. Existe, de facto, um crescendo, e a estética é impressionante, sendo, provavelmente, das melhores qualidades do filme. A banda sonora também impulsiona o suspense que paira, remetendo-nos, quer seja pela fotografia, quer pelo som, a clássicos do suspense e thriller.

 

Jacqueline Bisset (Elizabeth), The Lodger (2020)

Jacqueline Bisset (Elizabeth), The Lodger (2020)

 

O desempenho de ambas as atrizes, e a sua química é fabulosa. Quer Julie, quer Elizabeth começam a viver momentos de delírio e de sonho, cujas sensações, emocionais e físicas são transportadas para o plano. O climax é algo inesperado, apesar de não ser surpreendente. O filme prima pela beleza da imagem, pelos detalhes e pela preocupação com um guião bem estruturado e organizado, sem cenas soltas, mas com alguns problemas de raccord.

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Drappeau está de parabéns, fica aqui uma história bem contada, quase idílica, numa perspetiva romanceada, de obsessão e algum medo latente.


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Licenciada em História da Arte, apaixonada por arte e fotografia, com o lema: a vida só começa depois de um bom café, e uma pintura de Velázquez.

Jaime Roriz Advogados Artes & contextos