Música Gótica

Tons Fúnebres em 6 peças de Música Gótica

4 de setembro, 2020 Off Por Artes & contextos
Modo Noturno

Música Gótica

 

O mundo gótico pode muito provavelmente ser associado a um romance de Horace Walpole (1717 – 1797; 4º Earl of Oxford), intitulado “O Castelo de Otranto”. Este trabalho data de cerca de 1764 e foi interessantemente publicado sob um pseudónimo com o claro propósito de dar vida à ficção contemporânea da altura.

A importância deste trabalho é o facto de ser considerado o primeiro Romance “Gótico” com obcessões familiares com o lado negro da natureza humana, a morte e o terror. O Romance de Walpole não só é sinistro, sobrenatural, e assombroso, mas contrasta em algumas secções com passagens de comédia genuína, talvez para tornar os elementos horríveis mais aceitáveis.

Onde entra, então, o Gótico no mundo da música clássica? Deixando de lado o destino de Don Giovanni na ópera notável de Mozart do mesmo nome, K.527, os paralelos musicais começam verdadeiramente na Era Romântica, à medida que os compositores se concentraram em paixões mais negras.

A lenda de Fausto figura em numerosos trabalhos do período juntamente com Lucifer a arrancar almas dos ingénuos e gananciosos

1. O Franco-Atirador’ (Op.77) de Carl Maria von Weber

Resumidamente, o enredo desta ópera foca-se num triste atirador, após perder um concurso de tiro contra um camponês. Mais importante, Max (o protagonista e segundo assistente de silvicultor na ópera) está também prestes a perder a possibilidade de casar com a sua noiva desejada Agathe.
Caspar (primeiro assistente de silvicultor), e amigo de Max conta-lhe acerca das suas balas mágicas e diz-lhe para se encontrar com ele à meia noite no aterrador «Vale do Lobo». Lá irão fazer mais sete balas mágicas. O que Max não percebe é que aquilo era um acordo com o diabo (Samiel), que tinha amaldiçoado a sétima bala para ir para onde ele desejasse. Neste caso, Agathe e o seu pai.
A cena do Vale do Lobo é uma das peças mais assustadoras da música Romântica inicial que conheço. Tem todos os ingredientes, inluindo um refrão sem letra, tudo somado num tom menor.

2. ‘Sinfonia Fantástica’ (Op.14) de Hector Berlioz

A meu ver, este é um dos trabalhos orquestrais mais extraordinários alguma vez escrito. Berlioz compôs uma pauta arrebatadora e , de diversas formas, foi pioneiro de um novo método de composição usando aquilo que chamava «idée-fixe». Tal como o artista que é sujeito do trabalho todo, o idée-fixe viaja através de cada parte deste grande trabalho transformando à medida que avança de acordo com a cena e sentimentos na pauta. O artista (na verdade, o próprio Berlioz) sofre após uma relação amorosa falhada e cai numa série de sonhos ou pesadelos alimentados a ópio.
Esta cena acima é a quarta onde o artista foi condenado pelo assassinato da sua amada e sentenciado à morte na guilhotina. A pauta rica retrata os momentos finais do jovem à medida que ele é levado para o cadafalso, onde os seus últimos pensamentos são da mulher que ama. O que se segue é o «Sabat das Bruxas», que é igualmente assustador. Aqui, a cena é infernal em qualquer sentido da palavra. Berlioz consegue mesmo tecer os «Does Irae» (Dias de Ira) nesta cena, criando uma visão verdadeiramente gótica.

3. ‘‘The Wood Dove’, Op.110 (1896) de Anton Dvorák

Na superfície, um trabalho orquestral agradável e encantador da caneta deste mestre do programático. Neste poema orquestral, Dvorák magica uma gloriosa gama de emoções da orquestra. Toda a melodia é primordial, fluindo facilmente do manuscrito. Sob a pauta de Dvorák conjura a história sombria de uma mulher que mata o seu marido, envenenando-o, somente para voltar a casar pouco tempo depois. A pomba pousa lamentosa na campa do homem morto cantando tão doce e tristemente que a mulher acaba por se suicidar, afogando-se no rio.

4. ‘Baba-Yaga’ (The Fowl’s Hut On Legs) “Imagens numa exposição” de Modest Mussorgsky

Esta grande representação de trabalhos do artista Hartman, cujos trabalhos capturaram a imaginação musical de Mussorgsky após uma visita a uma das suas exibições. Cada uma das «imagens» irrompe na pauta de Mussorgsky com fogo, cor e uma paixão incrível.
Do aterrador «Castelo Antigo» ao Gnomo desajeitado e grotesco, a natureza gótica deste trabalho é aparente. A ligação acima é para a parte mais negra da coleção e tem como fim retratar em som o horrível pesadelo da bruxa de folclore Baba-Yaga, que voa ao redor da floresta num pilão e almofariz. A composição de Mussorgsky é chocantemente gráfica, tornando esta peça numa das mais inesquecíveis.

5. ‘Faust Symphony’ (S.108 – 1857) de Franz Liszt

Para muitos, esta sinfonia resume o Romanticismo. Tem a duração de pouco mais de setenta e cinco minutos, estruturada em três movimentos gigantescos e com Fausto como sujeito de escolha. A sinfonia é inspirada pelo poema de Goethe “Fausto”, mas não é uma representação direta do poema, mas sim um retrato sinfónico das três personagens principais do poema: Fausto; Gretchen e Mefistófeles.

Cada um destes sketches musicais é progressista e pensado por alguns académicos para conter o primeiro exemplo de uma linha tonal que Schoenberg reclamou como sua. O som cromático do material em conjunto com o uso estendido das cordas aumentadas torna a base harmónica instável e inquietante.
Como um ponto de interesse musical, Liszt concebe inteligentemente o movimento final baseado no material temático de Fausto, trazendo coerência estrutural mas também dando a pista de que o Diabo é obra do próprio Fausto. A instrumentalização é notável e mesmo no final, Liszt faz o golpe de mestre de incluir um refrão masculino que canta as palavras de “Fausto” de Goethe.

6. ‘Sinfonia No.1’ em Ré menor; (Gótico; 1919-1927) de Havergal Brian

Sendo rival da Sinfonia número oito de Mahler, este trabalho colossal tem a duração de aproximadamente duas horas. A composição é complexa em várias maneiras, e tematicamente, vários fios se juntam para criar uma sinfonia titânica. Composto pouco tempo depois dos horrores da Primeira Guerra Mundial, a influência desta é aparente na pauta. Fausto também aparece neste trabalho mas mais como uma figura de esperança do que de maldição.

O conceito de redenção contrasta com os terrores terrestres no trabalho de Brian numa tentativa de criar uma peça afirmando as possibilidades do espírito humano. O elemento “Gótico” da música que Brian utiliza para representar e sublinhar a positividade que se originou naquela época. Acredita-se que Richard Strauss descreveu o trabalho como “magnífico”.

 

Este artigo foi traduzido do original em inglês por Inês Carvalho

O artigo original foi publicado em @CMUSE – Classical
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Artigo traduzido por fe
Inês Carvalho
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