A Vida Extraordinária de David Copperfield Cartaz

A Vida Extraordinária de David Copperfield

17 de setembro, 2020 0 Por Rui Freitas

A Vida Extraordinária de David Copperfield

 

Partindo do romance elasticamente autobiográfico do autor, Armando Iannucci (realização) e Simon Blackwell (argumento), tomaram a obra de Charles Dickens, David Copperfield e adaptando-a (mais uma) ao cinema sob o título The Personal History of David Copperfield (A Vida Extraordinária de David Copperfield) (2019), criaram certamente em muitos, a vontade de ler ou reler Dickens. Esta é mais uma versão cinematográfica desta obra, mas pode, em muitos aspetos ficar como “A” versão cinematográfica desta obra.

Numa história de vida que vai da quase miséria à abastança, para a pobreza de novo, e novo regresso à abundância, os pontos altos são sempre festivos e os baixos não são nunca depressivos.

David Coperfield (Dev Patel) em A Vida Extraordinária de David Copperfield (2019) A Vida Extraordinária de David Copperfield (2019)

David Copperfield (Dev Patel) em A Vida Extraordinária de David Copperfield (2019)
A Vida Extraordinária de David Copperfield (2019)

Desde a tia Betsey Trotwood (Tilda Swinton), que certa que iria ser tia de uma menina achou “ridículo” que fosse um menino; ao primo desta Mr Dick (Hugh Laurie) que tinha na cabeça os pensamentos do decapitado rei Carlos I, e sem esquecer o oportunista e “vampírico” de cabelo à tigela, Uriah Heep (Ben Whishaw), a excentricidade das personagens impõe um caráter irónico e muitas vezes cómico a uma narrativa leve e com muito ritmo, que navega por entre a miséria e a maldade, a vigarice e o expediente, mas sem nunca cair na amargura.

Mr. Dick (Hugh Laurie), Betsey Trotwood (Tilda Swinton), e David Coperfield (Dev Patel) em A Vida Extraordinária de David Copperfield (2019) A Vida Extraordinária de David Copperfield (201

Mr. Dick (Hugh Laurie), Betsey Trotwood (Tilda Swinton), e David Copperfield (Dev Patel) em A Vida Extraordinária de David Copperfield (2019)
A Vida Extraordinária de David Copperfield (201

Desde criança, David  revela um fascínio por anotar pensamentos que elabora poeticamente a propósito de tudo e os pedaços de papel que acumula numa caixa, são a sua maior riqueza.

O filme inicia com um Copperfield (Dev Patel) adulto, perante uma plateia a preparar-se para narrar a obra que acabara de escrever. A história passa a visual e a decorrer perante os nossos olhos, desde o nascimento de David e os primeiros dias de vida vistos pelos olhos do próprio, até adulto.

Durante toda a narrativa, viajamos entre vários planos, sem nunca perdermos o pé. São, a vida narrada pelo protagonista, intercalada com a visão imaginada pelo próprio, que vai criando os momentos ao seu gosto. Os planos sobrepõem-se e ilustram-se mutuamente como em mundos paralelos, com uma riqueza gráfica notável e para o final Iannucci dá-nos uma extraordinária intromissão entre o que David escreve (a narração dentro da narração) e o que vê realizado, com uma personagem a interferir no texto.

Ham (Anthony Welsh) Daniel Peggotty (Paul Whitehouse) em A Vida Extraordinária de David Copperfield (2019)

Ham (Anthony Welsh) Daniel Peggotty (Paul Whitehouse) em A Vida Extraordinária de David Copperfield (2019)

A sua vida evolui aos altos e baixos tanto financeira quanto pessoalmente, mas o espírito combativo e um sentido positivo que o conduzem, levam-no a ultrapassar os vários graus de miséria em que cai e a adaptar-se, sem nunca perder o brilho nem a humanidade.

Viveu num barco-casa com a forte ligação aos miseráveis Peggotty, foi abandonado pela mãe em criança (Ranveer Jaiswal), foi ser explorado, quase escravizado numa fábrica, foi sem abrigo e pseudo-adotado pelo alegre e falido vigarista Micawber (Peter Capaldi), que o ensinou a fugir aos credores de Londres.

David (Ranveer Jaiswal) e Mr Micawber (Peter Capaldi) em A Vida Extraordinária de David Copperfield (2019)

David Copperfield (Ranveer Jaiswal) e Mr Micawber (Peter Capaldi) em A Vida Extraordinária de David Copperfield (2019)

Fugiu para casa da (por pouco tempo) rica, tia Betsey, foi espancado, roubado, gozado, foi Davy, Doady, Daisy, Trot, alcunhado por cada novo grupo em que se inseria, mas não parou de espalhar otimismo e trazer brilho a todos os que a vida lhe pôs no caminho.

Vemos com entusiasmo o duro, acidentado e divertido caminho que o jovem David trilha para vir a tornar-se escritor e torcemos por ele a cada tombo, desejando que se levante de novo e fique bem de uma vez por todas.

É um argumento fantástico com uma realização sem mácula; um elenco de luxo e no melhor de cada, para uma história séria e divertida, brilhante e feliz.

A cenografia, o guarda-roupa, a fotografia, a produção artística em geral, são irrepreensíveis.

São duas horas de cinema que ficarão gravadas fundo na arca dos bons momentos cinematográficos de muitos. Na minha ficarão, sem dúvida.


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