Mozart Vs Salieri

Mozart Vs Salieri | A Música entre dois Grandes Compositores

17 de junho, 2020 0 Por Artes & contextos
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Mozart Vs Salieri

 

Vale a pena começar por referir que, se não fosse a peça premiada e o subsequente filme, de Peter Schafer ‘Amadeus’, todo o burburinho em torno dos dois grandes músicos nunca teria surgido. O próprio Schafer admitiu abertamente que “Amadeus” não era um documentário, mas sim uma obra intimamente inspirada no trabalho de Alexander Pushkin, intitulado “Mozart e Salieri”.

A obra Pushkin, por outro lado, provém de quatro peças de teatro chamadas ‘The Little Tragedies’, publicadas em 1832 e inspiradas nas muitas teorias da conspirações que rodearam a morte prematura de Mozart.

Um dos elementos-chave que emerge da obra de Schafer é a representação de Salieri como músico da corte. No filme, Mozart ridiculariza as habilidades musicais de Salieri, humilha-o e torna-se um espinho na vida do compositor. Isto, por sua vez, leva Salieri a assassinar Mozart tomado por raiva e movido por puro ciúme. É perfeitamente compreensível, que a rivalidade entre estes dois compositores tenha então atingido um tom difícil de dissipar sem maior exploração. Até o compositor russo Rimsky-Korsakov apresentou em 1898 uma ópera que alimentava este rumor de do envenenamento de Mozart por Salieri.

A história tende a favorecer os vencedores e, ao pensarmos em Mozart e Salieri, é Mozart que conhecemos melhor, pois foi a sua carreira que ensombrou quase todos os outros compositores da época. Não sobreviveu grande quantidade de informação que nos dê uma imagem detalhada sobre Salieri. O que sabemos é que Salieri já era um compositor muito respeitado e bem estabelecido em Viena, quando o jovem e ambicioso Mozart ali se estabeleceu, em 1781. Salieri nasceu em Legnago, Veneza, em 1750, e morreu em Viena em 1825. Os registos demonstram que ele foi amigo de Haydn durante a maior parte da sua vida e que foi mentor dos jovens Beethoven, Schubert e Franz Liszt. Beethoven dedicou mais tarde as suas três Sonatas para Violino, Op.12, ao seu amigo e mestre.

Salieri era conhecido como um compositor de ópera. É interessante notar que a sua composição “Tarare” (1787), recebeu mais reconhecimento e interesse por parte do público da época de que o “Don Giovani” de Mozart, no entanto o próprio Mozart regista nas suas cartas os comentários de apoio de Salieri sobre “A Flauta Mágica”.

A sua produção foi extensa e incluiu também concertos, obras sacras juntamente com muitas outras peças adicionais que foram muito bem recebidas pelo público da época. Algumas das suas últimas obras líricas tinham uma clara inclinação para a esquerda política e incluíam elementos satíricos que não eram considerados próprios para a apresentação pública.

Infelizmente, a obra de Salieri não goza hoje da visibilidade que costumava ter, mas o século XX assistiu a um renascimento de muitas das suas peças, incluindo uma belíssima gravação de Cecilia Bartoli para a editora Decca (“The Salieri Album”; 2003).

O jovem Mozart de 25 anos chegou a Viena acompanhado pela sua já considerável reputação. Infelizmente, não se tratava de uma pessoa de carácter fácil e era frequentemente considerado desafiador em relação a pessoas com autoridade. Estabelecer-se em Viena estava a revelar-se um desafio e Mozart escreveu ao seu pai Leopold queixando-se de que os compositores italianos estavam a ser favorecidos em relação a compositores como ele provenientes de países estrangeiros. Salieri era de facto um dos favoritos do Imperador José II, que patrocinava a maior parte das suas óperas.

Para ele, como compositor austríaco, ver compositores italianos a receberem todos os louvores e oportunidades certamente terá sido difícil e pode ter sido a fonte de animosidade entre os dois músicos, mesmo tendo sido mantido por entre portas fechadas. Outra dificuldade na relação entre Mozart e Salieri foi a ligação com o libretista Lorenzo Da Ponte. Com a recomendação de Salieri, Da Ponte tornou-se o libretista do Teatro Italiano de Viena, colocando-o no centro criativo da Europa.

Ao saber que Da Ponte colaborou com Salieri, Mozart ficou muito incomodado e jurou não trabalhar com ele em nenhuma das suas futuras óperas. Isto acabou por ser um pouco uma tempestade num copo de água quando o poeta e o compositor trabalharam em “Don Giovanni” (1787),‘The Marriage of Figaro’ (1786) e ‘Cosi fan Tutte’ (1790).

Curiosamente, o libreto de “Cosi fan Tutte” foi oferecido a Salieri por Da Ponte, mas ele rejeitou a oferta, achando que não valia o seu tempo criar uma ópera. Quando Salieri ouviu o que o rival tinha criado a partir das suas sobras, podemos imaginar que se tenha sentido um pouco incomodado.

 

Para além da reputação de Salieri como um compositor extraordinário, ele foi muito bem sucedido como professor. Um outro conflito de interesses surgiu por volta de 1781, quando ambos os compositores se candidataram para serem os professores de piano da Princesa Isabel de Wüttemburg. Salieri conseguiu o cargo perdendo Mozart a oportunidade de se aproximar mais das pessoas de poder, influência e dinheiro. Infelizmente, no ano seguinte, a segunda candidatura de Mozart ao cargo foi também recusada, mostrando que mesmo um talento excepcional como ele nem sempre conseguiu o reconhecimento que merecia.

Para Salieri, o aspirante Mozart não era um rival odiado e, de acordo com muitos relatos, os dois compositores consideravam-se amigos e colegas. Salieri apoiou a obra de Mozart e ensinou o seu filho, Franz Xavier. Parece improvável que isto tivesse acontecido se eles não tivessem uma amizade sólida. Ambos os compositores foram prolíficos e celebrados com uma compreensível competição pela supremacia musical, mas como um verdadeiro meio de sobrevivência e não como uma guerra entre egos.

Após a morte de Mozart, Salieri continuou a defender o trabalho de Mozart, conduzindo frequentemente as suas óperas. Com o passar do tempo a popularidade de Mozart foi aumentando, enquanto que a de Salieri diminuiu, o que deve ter doído. Salieri viveu muitos anos mais do que Mozart, o que também deve ter esfregado sal na ferida e, nas últimas duas décadas de vida, deixou de compor quase por completo.

Em 1823, Salieri estava com uma saúde física e mental muito precária. Estava confinado ao hospital e apenas em momentos raros se encontrava lúcido. Entretanto, é suposto Salieri ter confessado o envenenamento de Mozart, apesar de, muito provavelmente, isto ter sido apenas o balbuciar de uma mente perturbada. O que isto fez, no entanto, para muitos foi reforçar a conspiração que o próprio Mozart tinha lançado ao afirmar no seu leito de morte, que o grémio italiano o tinha envenenado desencadeado um debate que se prolongou por décadas.

 

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Este artigo foi traduzido do original em inglês por Redação Artes & contextos


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