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The 1975 – Notes on a Conditional Form
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27 de maio, 2020 26 Por Laura Carvalho Torres
  • 5Minutos de leitura
  • 1129Palavras
Também o tempo torna tudo relativo

Este artigo foi inicialmente publicado há mais de 2 anos - o que é muito em "Tempo Internet". Pode estar desatualizado e pode ter incongruências estéticas.

The 1975

 

A banda de Manchester, começou a criar raízes em 2002 pelas mãos dos amigos (Matthew) Matty Healy, Ross MacDonald, Adam Hann e George Daniel. Dez anos depois lançaram o seu primeiro EP, Facedown, e agora, a 22 de Maio de 2020, acabam de lançar o seu quarto álbum de estúdio, Notes On A Conditional Form.

A data de lançamento do álbum – algo já usual no que toca ao misticismo que os rapazes gostam de manter – foi incerta durante algum tempo, com avanços e recuos. O resultado final, não poderia ter sido melhor. Ao longo de 22 faixas, há uma viagem sensorial, impactante, capaz de transportar a nossa mente para cenários completamente diferentes.

Definir um género? Praticamente impossível, o ecletismo é o melhor gear, nesta questão. Sons instrumentais básicos, acordes de guitarra, o som do saxofone, e muito tecno, preenchem este longo álbum, que vive de uma mistela de coisas boas e inexplicavelmente confusas.

A banda tem vindo a traçar um percurso interessante, com cartas lançadas em vários palcos, mas permanecendo fiel ao seu ponto de origem, com uma singularidade assinalável. Os fãs já sabem o que esperar: nunca se sabe o que esperar. Cinco minutos de música de fundo e uma forte mensagem da jovem Greta Thunberg, dão início ao álbum. Nunca esconderam a sua forte ligação a movimentos sociopolíticos, LGBT e causas ambientais, acompanhando de perto com ecos na sua música, cujas letras são autênticos discursos, que se tornam bem audíveis na voz de Healy.

The 1975

Matty Healy, The 1975 – Rock Im Park 2016

A transição entre a primeira faixa e a segunda – People – é genialmente bem feita: Wake up! Greta diz-nos para acordar, olhar e agir; The 1975 dizem-nos: Wake Up Wake Up Wake Up, It’s Monday Morning, And we’ve only got a thousand of them left, Well, I know it feels pointless and you don’t have any money, But we’re all just gonna try our fucking best. Num rock mais forte e onde se nota um piscar de olho ao punk, com um tom direto e agressivamente expressivo, Matty grita uma mensagem bem clara: o problema é real, não vale a pena omitir, abafar ou ignorar.

Para Matty, o ABIIOR (A Brief Inquiry into Online Relationships) seria o sucessor do Notes e não o contrário. Com uma mensagem catalisadora dos nossos dias – tecnologia e a relação praticamente carnal com o humano – o álbum tem uma estrela falada numa das faixas – The Man Who Married A Robot / Love Theme – que explica e esclarece que vamos falar de amor, política (e as suas asneiradas) e “bater no ceguinho” até dizer chega. O NOACF não está longe disso. Aliás, poderemos considerar o discurso de Thunberg, o sucessor do Love Theme supracitado.

Tal como ler um livro, os rapazes não queriam deixar de incluir um prefácio, glossário e índice, provocadores como sempre.

A estética musical e visual do trabalho dos The 1975 é feita de uma forma particular, que nos dá a sensação de que a imagem é tal qual o som, e vice-versa. Com os anos, a estética da banda tem vindo a mudar, e progressivamente a interligar elementos, tais como o famoso retângulo monocromático ou colorido. Desta vez, há uma imagética que vive dos tons néon, fortes e garridos, sem medo de chocar, com a curiosa inserção de filtros do Instagram, mesmo nos videoclipes.

Há diversos singles no álbum – People, Frail State of Mind, Me & You Together Song, The Birthday Party, If You’re Too Shy (Let Me Know), Tonight (I Wish I Was Your Boy) e Guys – diferentes, e únicos na sua essência, mas cujas mensagens se vão construindo e complementando com o avanço de cada faixa. A sonoridade, e o apelo visual transportam-nos para um look 2000’s, das bandas punk/pop/rock, exatamente aquilo que queríamos na banda sonora de um cult movie da primeira década do milénio.

Existe um certo saudosismo inerente à produção deste disco, que tem um cunho muito ferrado de George, e do seu estilo de composição/produção. Somos transportados – no caso dos Millennials – para os anos da adolescência, numa viagem bastante interessante. Todas as faixas são incrivelmente versáteis: são tão boas de ouvir na sua versão estúdio, como ao vivo. E, como já nos têm vindo a habituar, muitas são puramente instrumentais, num mix de tecno e instrumental, e a inserção de alguns back vocals computadorizados.

The 1975 (2014)

The 1975 (2014)

Numa entrevista ao Pitchfork, Healy coloca a tónica na importância que a composição e a produção do álbum tiveram no seu processo de reabilitação, tal como a necessidade de escrever sem maneirismos apologistas, não tentando demonizar, mas colocar os pontos nos ‘is: é isto que eu quero dizer!

Desde Joan Didion a Ricky Gervais, as punchlines misturam-se, entre si, à medida que vamos ouvindo o álbum e entendemos – ou então tentamos, no meio do, muitas vezes, seu inconfundível british matraqueado – as farpas que vai lançando. Não é novidade, visto que metáforas, jogos de palavras, mensagens diretas, outras embrenhadas, é algo que já ouvimos, e vemos, desde o self-titled até ao Notes.

Não é fácil gostar, nem é esse o objetivo, não é fácil ouvir nem mastigar, mas há uma plenitude na arte dos quatro ingleses, cuja maturidade sonora tem vindo a evoluir, tal com a própria mensagem. Determinadas faixas lançam-nos para memórias de outras, pertencentes a álbuns anteriores – como por exemplo Nothing Revealed / Everything DeniedIf I Believe You – Antichrist – outras são absolutamente inovadoras.

O culminar do álbum resume-se às duas últimas músicas: Don’t Worry e Guys. A primeira, escrita por Tim Healy, o pai do front man, remanescendo um cordão emocional e de amor puro e genuíno; a segunda, da autoria de Matty, uma autêntica declaração de amor aos seus peers: «You’re the love of my life, (…) The moment we started a band, was the best thing that ever happened».

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Um álbum puro, forte, intuitivo, ainda que impetuoso, longe de ser perfeito, mas perfeitamente bem criado. Há uma emocionalidade, excitamento, tranquilidade, tudo junto, que advém da experiência ao ouvir o disco. É uma «palmadinha nas costas», um «puxão de orelhas» e um calor imenso, que rodeia cada acorde, linha, letra e som.

 

It’s time to rebell!


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Licenciada em História da Arte, apaixonada por arte e fotografia, com o lema: a vida só começa depois de um bom café, e uma pintura de Velázquez.

Jaime Roriz Advogados Artes & contextos