Bacurau

Bacurau – MotelX 2019
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11 de setembro, 2019 2 Por Maria da Luz Pinheiro
  • 3Minutos de leitura
  • 573Palavras
Também o tempo torna tudo relativo

Este artigo foi inicialmente publicado há mais de 3 anos - o que é muito em "Tempo Internet". Pode estar desatualizado e pode ter incongruências estéticas.

Bacurau  – de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

 

Os dois realizadores trazem ao MotelX 2019 o filme galardoado com o Prémio do Júri no Festival de Cannes deste ano.

Tratando um mundo distópico (ainda que com muitas referências ao real), as personagens habitam uma aldeia fictícia com o nome Bacurau, um local remoto no interior do Brasil, de difíceis acessos e que praticamente não é visitado por ninguém.

Bacurau

Bacurau

A população sem acesso a água potável, nem a medicamentos, embora tenham a uma médica, a Sra. Domingas (brilhante papel de Sónia Braga), vive com o que a terra lhe dá.  A terra e o que o Prefeito da região em campanha eleitoral lhes concede, como livros velhos e alimentos fora de prazo.

Em contraste, dispõem de alguns exemplares de novas tecnologias, como alguns telemóveis, tablets ou o computador na miniescola, que pretendem dar-lhes a falsa noção de pertencerem a um Brasil que os estima, quando na realidade – acabam por perceber – nem constam dos mapas.

Bacurau

Bacurau – Udo Kier e Sónia Braga

As generosas ofertas Prefeito passam também em dado momento, o momento no tempo da pacífica comunidade em que a morte passa a ser uma constante, pelos muito úteis caixões.

O momento é quando começam a aparecer corpos de gente da aldeia brutalmente assassinada. Os hediondos crimes são da autoria de um grupo de norte americanos de extrema direita, que se instalara nas proximidades de Bacurau. O grupo fortemente armado, munido de drones e chefiado por Michael (Udo Kier), mata indiscriminadamente, com o objetivo de esvaziar as terras.

Kleber Mendonça Filho cria um universo em que o Brasil é dominado por negócios suspeitos com os Estados Unidos da América, que passam pela dizimação das minorias étnicas e indígenas e no qual os outsiders matam indiscriminadamente e sem pudor, motivados por interesses financeiros pouco claros.

Bacurau

Bacurau – Bárbara Colen

O aumento das mortes e o fatal esvaziar das famílias acabam por provocar a união da comunidade que munidos de pistolas, caçadeiras e catanas e com a ajuda de uma planta “medicinal” e alucinogénica que mascam, se mobilizam para responder aos assassinos, decididos a usar da mesma crueldade de que têm vindo a ser vítimas.

Bacurau

Bacurau – Silvero Pereira

Teresa, (Bárbara Colen) que nos introduz na pequena aldeia, usa um pendente com uma serpente, exemplificando a relação que estas comunidades hoje ainda mantêm com os animais ofídicos e Lunga usa um pendente com uma figa que chegou ao Brasil pela cultura Iorubá e que representa a contenção da energia sexual feminina.

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Sónia Braga dedicou a sua prestação à falecida Marielle Branco, que teve também a homenagem dos realizadores dando o nome a uma das personagens falecidas e as minorias, ficam também representadas na personagem Lunga (Silvério Pereira) – que encarna características masculinas e femininas, trajando roupas que não definem um género.

Bacurau, após Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, apresenta uma proposta nova para o cinema brasileiro e um grito para a indústria em geral.


Bacurau no IMDB

Como classificas este artigo?

Licenciada em História de Arte pela Faculdade de Letras de Lisboa. Apaixonada por histórias contadas na imagem, literatura do século XIX e artes decorativas. Defensora da liberdade no mundo da arte.

Jaime Roriz Advogados Artes & contextos