Manhattan Nocturne

Manhattan Nocturne

14 de julho, 2017 0 Por Luisa Fresta
Modo Noturno

Inicialmente sob forma de romance (Manhattan Nocturne, da autoria de Colin Harrison), a história serviu de base ao filme de Brian DeCubellis, «Manhattan Nocturne».

O universo da escrita volta assim a estar presente através da pena de Porter Wren (Adrien Brody), o qual assina uma coluna de larga visibilidade num reputado jornal de Nova Iorque.

Porter procura incessantemente uma boa história de maneira a respeitar os apertados prazos do jornal e a corresponder às expectativas dos seus numerosos e fiéis leitores. Ele escreve crónicas jornalísticas baseadas em factos marcantes do dia-a-dia de Nova Iorque, relatando fait-divers, tragédias, acidentes ou crimes, misteriosos enredos que o seu faro apurado ajudará a esclarecer. A crónica compõe-se através de mil fragmentos que o colunista selecionará em função do ângulo que escolhe. A sua fama precede-o, de tal forma que é já conhecido como “aquele que encontrou a menina desaparecida”. Pura sorte, mero acaso, descoberta colateral ou instinto aguçado?

Manhattan Nocturne

Para lá do seu evidente talento e sucesso junto do público, o experiente Porter terá que fazer algumas concessões ao modus vivendi nova-iorquino e comparecer a receções luxuosas envergando um sempiterno smoking; aparecer também faz parte do seu trabalho, mostrar-se mesmo que discretamente àqueles que detêm o poder financeiro, como o poderoso editor Hobbs (Steven Berkoff).

Para esses, basta uma palavra para reduzir a sua coluna a cinzas, por opção conjuntural ou por simples capricho. Nesse contexto, Porter conhece uma misteriosa e sedutora viúva, que o alicia para uma investigação sobre a morte do seu marido encontrado sob os escombros de um prédio demolido, um excêntrico realizador que durante toda a vida acumulou dezenas de vídeos filmados através de câmaras ocultas.

Paralelamente ao seu trabalho tão imprevisível quanto fervilhante, Porter vive em família numa vivenda inesperadamente acolhedora, à qual se acede através de um corredor claustrofóbico. Uma surpresa em Manhattan e um achado para esta família solidamente ancorada numa rotina estável, que põe a nu um homem enternecedor e vulnerável. Na verdade trata-se de um rochedo inalienável para Porter, o qual usufrui de uma felicidade tranquila e previsível em meio à azáfama matinal de uma família com filhos pequenos.

 Manhattan Nocturne

Caroline Crowley (Yvonne Strahovski) é a mulher que vai transtornar e transformar a vida deste discreto cronista. Até que ponto valerá a pena pôr em risco a própria vida, o status e a paz familiar por uma história de contornos sombrios? Porter vai confrontar-se com uma série de intrigas paralelas e de incongruências que envolvem chantagem, obsessão sexual e comportamentos borderline. Talvez ninguém seja exatamente apenas o que aparenta e todos tenham um segredo a evitar. O próprio Porter será tentado a acumular silêncios, mentiras e vidas alheias em nome de uma linha de investigação que se ultrapassa a si mesma. Talvez tudo valha a pena por um momento de êxtase e de adrenalina, quiçá o instinto animal e a curiosidade jornalística insinuem caminhos perigosos e ofereçam apenas o caos, a sordidez e profundas ruturas internas. Quem vive esmagado entre prazos age mais do que pensa, age enquanto pensa, faz do instinto o motor do raciocínio.

Manhattan Nocturne

Estão reunidos neste filme alguns dos ingredientes clássicos do film noir: a mulher fatal, os personagens de ética duvidosa, violência, quadros obsessivos. Um ambiente urbano e contemporâneo e o uso da narração, neste caso na primeira pessoa, pela voz do próprio jornalista.

Com um cenário sólido e uma intriga que prende desde os primeiros instantes do filme, Manhattan Nocturne é um thriller eficaz que deixará muito poucos espectadores indiferentes, também pela brilhante interpretação de Adrien Brody na pele do carismático cronista.

Em exibição desde ontem 13 de julho

 

Manhattan Nocturne no IMDB


Luisa Fresta
Open Call Artes & contextos