Moonlight

Moonlight

2 de fevereiro, 2017 0 Por Rui Freitas
Modo Noturno

Baseada na peça In the Moonlight Black Boys Look Blue de Tarell Alvin McCraney, e sintetizando o título em Moonlight, Barry Jenkins traz-nos uma obra cinematográfica de qualidade superior que nos conta a história pesada e ainda assim terna e comovente de um jovem negro que cresce num bairro pobre de Miami, e que desde muito cedo teve incertezas quanto à sua identidade sexual, que uma vez encontrada, seria por si calada, sufocada e o levaria a uma vida de sofrimento e solidão.

Little em criança, Chiron na adolescência e o seu verdadeiro nome, e Black em adulto, é como vai sendo conhecido o jovem nos três momentos que acompanhamos da sua vida.

Little (Alex R. Hibbert) é uma criança solitária que na escola e no bairro é perseguido e maltratado pelas outras crianças, que abusam da sua fragilidade e rejeitam o seu comportamento “estranho”. Tem um único amigo, Kevin, (Jaden Piner) que em face das perseguições e tormentos de que ele é vítima, o impele a reagir e a não permitir que o tratem assim.

Nas primeiras cenas vemos Little a fugir de um grupo de rufias que o persegue até à zona mais perigosa da cidade, levando-o a esconder-se numa casa abandonada.

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Juan (Mahershala Ali), que nos tinha sido apresentado como um patrão local da droga, e que se apercebera do ocorrido, segue-o, entra no seu esconderijo e tenta conversar com ele. Perante o silêncio insistente daquele, leva-o para sua casa e pede à sua companheira Teresa (Janelle Monáe) que tente conversar com a criança.

Juan e Teresa, apesar das etiquetas aparentes, são um casal equilibrado, ponderado, são amáveis e amorosos para com Litlle e demonstram uma genuína preocupação para com ele. Teresa conseguiu que Little falasse consigo e ficou a saber que ele não quer ir para casa onde vive com a mãe. Paula (Naomie Harris) é viciada em crack e preocupa-se mais com as visitas masculinas do que com o filho, ao qual chega a pedir que encontre onde ficar porque ela vai ter companhia durante a noite.

Ao mesmo tempo que Paula, (na primeira parte do filme, e apesar de tudo, ainda maternal e protetora) tenta mantê-lo afastado de pessoas como Juan, – a quem grita “és tu quem lhe vai dizer porque é que os outros lhe batem?” – esta personagem ambígua que lhe fornece crack, torna-se uma espécie de mentor da criança.

Apesar do aparente caminho para o cliché, Jenkins mostra-nos um Juan consciente e maduro, tentando mostrar a Little os caminhos corretos e apelando à sua autoestima como resposta à fragilidade do seu caráter.

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Juan aproxima-se dele, ensina-o a nadar e a criança passa a ter naquela casa a segurança e o equilíbrio que nunca tinha tido, e numa cena inesquecível Little pergunta a Teresa o que é um faggot (panasca) e como poderia saber se é um.

Mais tarde, numa das suas conversas na praia, Juan diz-lhe “a certa altura tens de ser tu a decidir quem vais ser, não podes deixar que ninguém decida por ti”.

Na adolescência vemos Little, agora Chiron (Ashton Sanders), muito magro, solitário e sorumbático, caminha a olhar o chão, e já não tem o seu protetor Juan, que apenas sabemos que morreu, e embora o possamos adivinhar, não é explicado como. Continua a encontrar na casa de Paula o seu porto de abrigo e em Kevin o único amigo. Esconde a sua sexualidade que o atormenta, chora tanto que teme “transformar-se em lágrimas” e continua a ser vítima dos rufias habituais.

Numa cena de grande beleza estética, ao luar na praia, com desempenhos notáveis de Ashton Sanders e Jharrel Jerome, Chiron aborda finalmente o sexo perante o amigo e Kevin, demonstrando compreendê-lo mais do que Chiron esperava, beija-o.

Num raro momento de violência, o grupo de rufias habituais obriga Kevin, que também não é suficientemente forte, a bater-lhe. A revolta acumulada em Chiron desperta e leva-o, como resposta, a espancar violentamente um dos mandantes. Como resultado, é preso.

Na terceira parte vemos Black, (Trevante Rhodes) uma alcunha que assenta na construção da imagem do macho afro-americano que Chiron “precisava” de ser, transformado naquilo que Juan fora. Fabricara a imagem necessária para o papel que se impunha representar, apresentava um corpo musculado de lutador profissional, olhar agressivo, conduzindo um belo e valioso carro, com brincos de diamante e anéis de ouro, afastando qualquer indício que pudesse ser entendido como gay.

Passaram dez anos, trocara Miami por Atlanta e construíra o seu próprio mini império de droga.

Black procura a mãe com perdão na alma e uma noite recebe um telefonema.

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Kevin (André Holland), lembrara-se dele por uma música que ouvira e resolvera telefonar-lhe. É agora proprietário de um pequeno restaurante, pai e divorciado. Black volta a casa para se encontrar com o seu único amigo. Kevin é a única pessoa que sabe quem ele é.

 

Moonlight é um filme, apesar da violência intrínseca, suave, terno e notavelmente humano.

Uma ode contra a intolerância e o egoísmo, pela a evidência de que independentemente da cor, raça, credo, sexo, ou orientação sexual de cada um, a composição das nossas lágrimas é a mesma e a única solidão é a interior.

 

 

De um elenco de enorme qualidade e difícil de fazer distinções, realço: os três Chiron (Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes) Kevin adulto (André Holland), Paula (Naomie Harris ), e sem dúvida Juan (Mahershala Ali)

Realização de Barry Jenkins, história original de Tarell Alvin McCraney e fotografia de James Laxton.

 

Moonlight no IMDB


 

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