Hell or High Water – Custe o que Custar

Hell or High Water – Custe o que Custar

7 de dezembro, 2016 0 Por Rui Freitas
Modo Noturno

Hell or High Water – Custe o que Custar, escrito pelo ator – tornado escritor em Sicario-Infiltrado – Taylor Sheridan e realizado pelo britânico David Mackenzie é um Western moderno em formato polícias e ladrões, com uma linguagem que pode levar a pensar em Este País não é para Velhos ou em Indomável, dos irmãos Coen.

Dois homens com máscaras de ski assaltam uma pequena agência bancária de onde levam apenas o dinheiro das caixas em notas pequenas. A forma atabalhoada e pouco profissional com que agem e o alarido com que partem em grande velocidade num carro desportivo, levam-nos a imaginar um futuro pouco promissor para esta dupla criminosa.

Saberemos que são dois irmãos, Tanner (Ben Foster) e Toby (Chris Pine). O primeiro um psicopata impulsivo que age de forma grosseira e violenta e que admite que não se consegue manter longe da cadeia; o outro, calmo, um angustiado pai ausente de dois filhos, divorciado, que tomou conta da propriedade da família durante a doença e após a morte da mãe e que quase pede desculpa às vítimas dos assaltos.

Os assaltos repetem-se e apesar da ideia inicial, vamos percebendo que estes não são nada arbitrários, antes são fruto de um plano perfeitamente delineado. Apenas assaltam dependências do Texas Midlands Bank, sempre ao princípio da manhã; exigem notas “pequenas” das caixas, não marcadas, e depois de cada assalto enterram o carro utilizado e trocam-no por outro.

Marcus (o enorme Jeff Bridges) é o Texas Ranger old school, que a três semanas da reforma é confrontado com esta situação. Desde os primeiros acontecimentos que consegue, sem, no entanto, saber qual, perceber que estes assaltos têm um propósito definido e acaba por antecipar os movimentos dos dois irmãos, que persegue de localidade em localidade, na companhia de Alberto (Gil Birmingham) o mexicano-comanche, seu ajudante.

Hell or High Water - Custe o que Custar II

Se bem que com cavalos em vez de automóveis e portas de madeira no lugar de envidraçadas pudéssemos recuar este mesmo filme cem ou duzentos anos no tempo, a crise económica e social é do século XXI, num Texas economicamente arruinado.

Apesar da aparente redundância, não se trata apenas da clássica oposição entre os bancos, que em tempo de crise são as únicas entidades que saem a ganhar, e aqueles que deles dependem que saem sempre a perder. Tanner e Toby precisam de dinheiro e obedecem a um prazo: têm que resgatar ao banco a terra da família onde foi descoberto petróleo, antes da execução da hipoteca, precisamente pelo Texas Midlands Bank. Os irmãos decidem, pagar ao banco com o dinheiro que lhe será roubado, que por outro lado sentem que lhes foi roubado a si, acabando por compor de ironia a sua desesperada tentativa de resgate da propriedade.

O realizador deixa-nos a escolher um lado, o dos ladrões, cujo drama moral, pelo menos Toby, enfrenta, considerando que aqui quem rouba a quem, é o banco à sua família, que levando-lhes o pouco que têm os impede de manterem a propriedade, ou o da Lei que, concordando ou não com a sua justiça deve ser cumprida por todos. “Dantes os brancos roubavam os índios, agora os bancos roubam-nos a todos” diz Alberto, sob a sua estrela de Ranger. O que é afinal a justiça e de que lado está?

Apenas as fugas são rápidas, já que tudo o resto se desenrola, ainda que com forte intensidade emocional, a um ritmo condizente com a desolação e a aridez da paisagem desértica do Texas Ocidental. A perseguição vai ter um termo, bem como os assaltos, e este termo vai afastar-se dos clássicos e estrondosos confrontos finais entre perseguidor e presa, caro a este tipo de argumento. Haverá o confronto, mas não será o fim.

As personagens estão magistralmente bem desenhadas, – e interpretadas – com o relacionamento entre os dois irmãos a pender do conflituoso inconsequente para o carinhoso envergonhado, como só entre irmãos acontece, e entre os dois Rangers, um velho e rezingão, e o outro mais novo revelando pouca paciência para o aturar, permanentemente trocando insultos humorísticos, apesar de ácidos, ou ácidos apesar de humorísticos, como só dois bons amigos podem trocar. O confronto entre estas duas duplas e os relacionamentos pessoais dentro delas, formam o suporte emotivo e o equilíbrio e linearidade do argumento.

Rodado no Novo México por questões orçamentais, Hell or High Water – Custe o que Custar, é um excelente filme, com um grande trabalho de realização, com fotografia de Giles Nuttgens, com um magistral Jeff Bridges, e que conta ainda, entre outros, com Katy Mixon e Margaret Bowman.

Estreia mundial a 8 de dezembro.

 

Aqui Hell or High Water – Custe o que Custar no IMDB


 

 

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