Armanda Alves - Artes & contextos

Armanda Alves – A Fase Dourada

30 de agosto, 2016 0 Por Luisa Fresta
Modo Noturno

 

“A pintura ensinou a literatura a descrever”.
Pamuk, Orhan

“Funde-se com o ar quente da tarde um vago cheiro a café moído e a bolachas de canela. Uma pesada porta de madeiraArmanda Alves - Artes & contextos maciça se entreabre sobre uma sala despojada, onde, numa cadeira de verga, se acotovelam bonecas de trapos com saias de serapilheira. Ao fundo do quintal, a terra ainda molhada pela rega recente larga um aroma forte e pegajoso enquanto uma galinha-do-mato esvoaça teimosamente junto ao muro. Alguns pés de jindungueiro carregados de vaidosos frutos vermelhões e um abacateiro que teima em crescer devagar, como vagarosas e suaves são também as sensações que emanam da obra de Armanda Alves.

Nada disto é real, entenda-se, posto que não é palpável nem visível, nem audível, apenas percetível e imaginado. Mas confesso que foi esta a primeira impressão, alheia a qualquer olhar mais racional, que me ficou da simples leitura destas telas; elas têm em comum com o café, a canela, a terra, a madeira, o cacau, a tijoleira, a múcua, a ginguba ou o entardecer teimoso dos trópicos, a cor térrea, vermelha e doirada dos tons da natureza, antes de ser verde, antes de receber a torrente purificadora da água, lá onde desertos e sóis escaldantes impõem cores e ritmo.

Armanda é uma artista luso-angolana autodidata que vem amadurecendo técnicas diversas para expressar aquilo que lhe é intrínseco. Ela pinta com o corpo mas também e sobretudo com o olhar e com a alma. Não se pode descer um olhar crítico sobre o seu trabalho sem entender que a Armanda Alves - Artes & contextosprópria arte é uma crítica implícita ao meio envolvente, uma forma de descrever o seu mundo e de nos contar as suas histórias que molda com as próprias mãos. Longe dos cânones da arte meramente figurativa sem no entanto se afirmar como uma resposta hostil aos classicismo, Armanda escolheu uma reduzida paleta de cores para nos trazer a energia da Terra, em toda a sua imensidão, uma história que nos fala de lavras e de trabalho árduo, de enormes pássaros de asas de vidro, de caracteres sonhados, de aglomerações de gente e de figuras geométricas, sobretudo formas arredondadas como o ventre de uma mulher grávida, gotas de chuva na vidraça ou fragmentos de luas. Dir-se-ia que tem inteiro domínio sobre a forma, embora não se submetendo a ela cegamente.

Ocasionalmente se imiscuem no seu grafismo poético algumas estrofes a verde seco ou azul cinza, tons indefiníveis e fugazes, embora timidamente, sempre pedindo licença ao predomínio claro do oiro terra que confere o ritmo de fundo e harmoniza o conjunto, como um viola-baixo. A sua expressão pictórica tem sabor, traz o gosto das coisas triviais ao palato, confere graça e elegância até a um grão de poeira que por momentos se tenha desviado da rota dos ventos. Ela transcende a frieza das superfícies planas, e para citar alguém que me é próximo diria que a sua obra “dá vontade de comer”.

Armanda Alves

Armanda Alves

Traz o etéreo para o real e oferece uma miríade de sensações díspares em cada tela. Cada obra sua é fonte de paz, um hino à génese do universo e da vida, uma gota de sangue ou uma folha convertida em pó. [Deixemos aos especialistas a árdua tarefa de situar a obra da artista entre os seus pares e de rotulá-la e uniformizá-la através das classificações usuais e expectáveis, entre a arte contemporânea e o abstracionismo]. A minha visão é transversal e intransmissível, posto que entendo que a arte, sendo embora um mercado, é sobretudo uma forma privilegiada de comunicar e de gerar emoções. A César o que é de César, aos críticos, especialistas, curadores e marchands o que lhes corresponde por direito e dever, ao público apenas um olhar descomprometido e aberto, deixar soltar as amarras do conhecimento para apenas sentir e sorver cada gota de vida e de beleza.

PArmanda Alvesor momentos surgem diante dos meus olhos algumas telas de Gustave Klimt; sim, os quadros podem falar entre si, e tenho a certeza de que algures, na sua fase doirada, Klimt terá antecipado um diálogo animado com Armanda Alves. Sem pretender etiquetar a obra versátil desta pintora [em busca de um caminho ao longe, como quem busca um porto seguro] encontro também algumas semelhanças com o surrealismo de Miró, sobretudo pelas formas, mais esculpidas do que desenhadas, ou com a linguagem pós-impressionista de Gauguin, na ousadia das curvas e da luz e na opção pelos tons de terra.

Desde 2008 até à data, Armanda Alves tem marcado presença regular em numerosas exposições em vários locais do globo, traçando uma trajetória que se prevê cada vez mais fulgurante e sulcando com firmeza os trilhos de uma estética em evolução. No próximo dia 1 de setembro inaugura a sua exposição intitulada “Versatilidades” na Casa de Angola, em Lisboa, e a mesma estará patente ao público até 23 de setembro.

Paul Valéry afirmava que “Um pintor não devia pintar o que vê, mas o que será visto”. Creio que Armanda o conseguiu, na sobriedade da linguagem deliciosamente vulnerável e inteligível da emoção. Como uma taça de café com um travo a canela.


 

 

 

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Luisa Fresta
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