O Grande Kilapy

O Grande Kilapy

28 de junho, 2016 0 Por Luisa Fresta
Modo Noturno

Na sequência da apresentação de obras de realizados lusófonos, apresentamos hoje uma longa-metragem do angolano Zezé Gamboa: O Grande Kilapy. É fácil falar do que é consensual, do que já foi profusamente premiado e tem feito, um pouco por todo o lado, as delícias da crítica e do público: um bom argumento, que gerou uma empolgante narrativa, contada no ritmo certo.

Contudo, também representa um desafio encararmos a nossa própria História através de um outro olhar, neste caso, o do cineasta Zézé Gamboa. Zézé conta-nos uma história com substância e humor, baseando-se em factos reais livremente adaptados, sem a obsessão pelo rigor histórico ou factual, como é natural num produto de ficção. Não se deixa nunca espartilhar pelo politicamente correto e esse aspeto é evidenciado pela linguagem vernacular dos diálogos, sem floreados nem branqueamentos, alheia a eufemismos, sobretudo a usada pelos agentes da Polícia Política.

A rodagem decorreu entre Lisboa e João Pessoa (Paraíba, Brasil), contando com um elenco internacional de luxo constituído por atores consagrados dos três países que integram a produção, Angola, Portugal e Brasil, para além de Moçambique. No meu entender, a escolha soberana do cineasta em relação ao casting ou aos locais de filmagem revelou-se bastante acertada. Outras opções seriam possíveis, mas este é o filme de Zézé e não me cabe meter a foice em seara alheia neste particular: são as suas decisões, por razões estéticas, ou financeiras.

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Lázaro Ramos funde-se com a sua personagem com transparência e humildade e o seu profissionalismo salta à vista. Conhecemos a preocupação de Zézé em rodear-se de atores que lhe ofereçam garantias independentemente da sua origem, que sejam consagrados e populares, que levem o espectador ao cinema (já o fez na sua primeira grande metragem, O Herói, em 2004). Para além do protagonista, há uma lista infindável de atores que gostaria de mencionar – qualquer um deles mereceria, por si só, um olhar mais atento – mais fico-me por aqueles, cujas personagens mais se agarraram à minha memória recetora e que consequentemente fazem sobressair os atores que lhe dão corpo, sem desprimor para o magnífico trabalho individual e coletivo. O convincente José Pedro Gomes, no papel de narrador, o insubstituível João Lagarto, Sílvia Rizzo, Patrícia Bull, São José Correia, Pedro Hossi, Carlos Paca, Alberto Magassela, Maria Ceiça e o inimitável António Pitanga (qualquer um deles dispensaria a superficialidade destes adjetivos e apresentações apressadas!), sendo os dois últimos atores convidados. Não faço distinção entre atores nacionais e estrangeiros, apenas a sua entrega aos papéis influi sobre a minha apreciação: um ator é um «enganador profissional» que aparenta o que não é, o que não sente, o que não tem, ou um sotaque que lhe é estranho, e que «chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente», como «o poeta», segundo Pessoa. Todos estes primorosos fingidores me convenceram sem reservas, contando «verdade com mentiras»; e isso é «fazer cinema», de acordo com a visão do cineasta.

 

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João Fraga, Joãozinho das Garotas, ou ainda Goldfinger, é um jovem estudante do prestigiado Instituto Superior Técnico, em Lisboa, em vésperas da revolução de Abril, filho de uma família da pequena burguesia luandense. A sua vida desliza entre os estudos (por ordem crescente de prioridades!), o basket, no Sporting de Lisboa, os automóveis de luxo e a vida boémia, que o leva a conhecer e privar com lindas e sedutoras mulheres, (em décors glamourosos, entre rendas e sedas, brilho e vinhos caros), quase sempre da classe média consolidada ou da classe alta. Filhas de figuras poderosas do regime ou de representantes da burguesia lisboeta ou luandense com quem Joãozinho «esgrima» elegantemente e cuja autoridade desafia sem mesmo ter intenção de o fazer. Ele tem esse carisma, essa fluidez natural e camaleónica, que pode vestir-se com vários nomes consoante as latitudes: charme, sex-appeal, borogodó, pegada. E aquele olhar penetrante e lábia fácil que encantou muitas mulheres e destroçou os corações de outras tantas. Aliás, impossível duvidar de tal poder, se o próprio atira à cara de um agente invejoso, referindo-se às suas armas de sedução: «Ou se tem … ou não se tem!».

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Mas o herói desta história, para além da escola ao melhor estilo Bond, tem uma característica que talvez o defina acima de tudo; é o melhor amigo que se pode ter: leal, intrépido, constante, solidário, generoso como poucos. Um tipo reto com os companheiros, subsidiariamente engajado, herói da miudagem, estiloso, polido, fiel aos seus, ou apenas um bom malandro frívolo e superficial com as mulheres, irresponsável e burlão, cuja única preocupação é fruir dos prazeres da vida sem remorsos, sorver com sofreguidão cada segundo? Joãozinho não merece (voltar a) ser julgado, não pelo espectador, uma vez que já o foi na sua época, entre Lisboa e Luanda, onde o seu estilo incomum (para um cafuzo, como é descrito no filme), a sua ostentação e sucesso social lhe proporcionaram muitos amigos mas igualmente muitos inimigos, figuras ligadas à PIDE, sobressaltadas pelo seu estilo de vida tido como suspeito, e seguramente tão incómodo como uma pedra afiada no sapato do regime. A Casa dos Estudantes do Império, que foi encerrada há pouco mais de cinquenta anos, foi cenário de muitas festas, de intrigas políticas, sempre sob vigilância apertada do Regime uma vez que dali saíram para o mundo lusófono inúmeros dirigentes independentistas que chegaram a assumir altos cargos nas ex-colónias.

Na perspetiva de Zézé, Joãozinho foi uma figura atípica e nada linear, que não deixava de ter rasgos de nobreza nos seus relacionamentos, com quem realmente importava, e para quem a amizade era um compromisso maior: maior que as paixões, mais forte que o medo, mais constante que o instinto de preservação.

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Não deixando de sublinhar elementos sociais e políticos importantes do Estado Novo, de denunciar a brutalidade e arbitrariedade das detenções, próprias de uma qualquer ditadura, o preconceito racial mas também social, Zézé mostra sem forçar uma parte da nossa História sobejamente comentada, embora não se trate de um filme panfletário. Apenas a título de curiosidade menciono o poder da paixão pelo desporto na comunicação entre os homens: o facto de Joãozinho ser um base de basket no Sporting ter-lhe-á poupado alguns dissabores mesmo durante os interrogatórios mais brutais… tal como a devoção geral pelo magistral Eusébio ora camuflava ora diluía o racismo mais empedernido. Uma nota de humor diante da barbárie e da intransigência.

É uma história forte e divertida acerca de uma figura invulgar que sobressaiu na sua época. A sua imagem não é beatificada nem crucificada neste filme e parece-me que estamos, neste caso, diante de um magnífico exemplo de equilíbrio entre ficção e documentário biográfico e sobretudo entre arte e indústria. Momentos de entretenimento com conteúdo, como merecemos


 

 

 

Agradecimentos: Expresso o meu reconhecimento ao realizador, que me proporcionou acesso a informações relevantes, e à Rebeca/ IMOVISION, pela disponibilidade e gentileza.

 

 

 

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Luisa Fresta
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