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Judite

24 de março, 2016 0 Por Gigi Manzarra
Modo Noturno

Judith beheading Holofernes - Gentileschi

Judith Degolando Holofernes 1611–1612 Artemisia Gentileschi, Museu de Capodimonte 

Fomos assistir à apresentação de Judite, uma adaptação de Rui Catalão a esta história bíblica, relatada no Antigo Testamento e que faz emergir da memória a outra, de Salomé que pediu a cabeça de João Batista e lhe foi “servida” numa bandeja. A comparação é inegável, embora ao contrário de Salomé, as razões de Judite fossem, sem dúvida, altruístas.

Uma história que gera alguma polémica, já que muitos acreditam ser real e outros ser meramente figurativa….

Nabucodonosor, rei do Império da Babilónia, decidiu enviar um exército com o intuito de dominar o povo Judeu, por considerar que essa nação prejudicara o seu reino. O algoz nomeado para comandar o exército, foi o general assírio, Holofernes. Conhecido como um homem frio e devasso, era temido por todos e deixava um rasto de sangue por onde passava.

A cidade escolhida para ser sitiada, foi Betúlia, onde vivia Judite, uma linda viúva, senhora de um corpo exuberante e sensual, e de uma inteligência admirável; uma mulher regida por instinto selvagem, sustentado por uma mente ardilosa. Espelho da luta pela sobrevivência…

Com um cerco demorado e intransigente, os habitantes da cidade estavam fadados a morrer por escassez de comida.

Foi então, que Judite resolveu sacrificar a honra do corpo em prol da honra da consciência e, assim, salvar o povo que tanto amava. Acompanhada pela sua silenciosa serva, dirigiu-se ao acampamento levando alforges de víveres que tinha guardado. Ao chegar perto de uma patrulha assíria, afirmou levar uma mensagem para Holofernes e talvez pelos encantos da sua beleza, foi prontamente introduzida no acampamento. Aproximou-se do general, que logo se encantou. Atraiu-o, seduziu-o e fê-lo beber até o deixar extasiado e ébrio.

Quando todos se recolheram, ela acedeu em ir para a tenda do comandante, que já se encontrava completamente embriagado. Esperou que este se deitasse e, ao senti-lo entregue, segurou-o pelos cabelos, empunhou uma espada e desferiu um golpe mortal, separando-lhe a cabeça do corpo, que a seguir entregou à serva para que a escondesse dentro dos alforges e partiu a meio da noite levando com ela, o sonho da vitória de um poderoso exército.

Ao chegar a Betúlia, mostrou aos anciãos a cabeça do chefe inimigo.

No dia seguinte, no acampamento, encontravam Holofernes degolado e perante tal vergonha, o exército assírio levantou cerco e retirou-se, envergonhado e humilhado.

Esta foi a história contada, se é verídica ou não….  Pouco nos interessa, com todos os ensinamentos que podemos ler nas entrelinhas: esperança, cobiça, drama, coragem, confiança e excesso dela …

Fiquei bem impressionada pela beleza dos diálogos e pela simplicidade do cenário.

Num recinto com pouco mais do que uma cama e uns tapetes no chão, consegui imaginar e ver um exército, o general, Judite, a serva e todo o drama que os envolvia. Viajei até à época e esqueci o lugar onde me encontrava.

Magia, sem dúvida, devido ao texto e ao desempenho dos atores.

Embora seja uma história bizarra e sangrenta, que conta com um excelente grupo de atores, onde se inclui o próprio Rui Catalão, este decidiu usar um coro infantil que irá constituir o “Exército de Crianças”. Não ignoramos que o exército de Holofernes fosse composto por adultos, embora na verdade, muitos dos soldados não passassem de crianças obrigadas a crescer à força, mas através desta perspetiva talvez Rui Catalão, pretenda contrapor a leveza da inocência da voz das crianças ao peso da tragédia, criando assim, um contraste que atrai e atenua.

Muitas frases, em que podemos arrancar dos seus significados embutidos, perguntas e respostas para questionamentos da vida, do nosso quotidiano, sobressaem: “Não consegues fazer crescer cevada num campo regado de sangue”, “Qual a fala da tua consciência quando buscas o sono?” ou “Pede-me para desfigurar o melhor que há em ti e farás o que eu faço”.

Quando terminou a peça, na habitual conversa com a imprensa, Rui Catalão, revelou-se um homem fluente, espontâneo, seguro, de olhar expressivo e muitos gestos. Tinha visto a magia, ia ficar a conhecer o mágico.

Afirmou ser um amante de História e de pintura e falou sobre a sua inspiração. Inspirou-se nos vários quadros de Judith, que são pintados desde a Idade Média. Entre os pintores inspirados por esta história temos: Rembrant, Artemisia Gentileschi, Donatelo, Botticelli, Mantegna, Tiziano, Caravaggio, Goya, Vernet entre outros. O que mais o impressionou, foi aquele pintado por Artemisia Gentileschi, que escolhemos para ilustrar esta apresentação.

Também Wolfgang Amadeus Mozart se rendeu ao fascínio da história dessa mulher e seu amor sem limites pela liberdade e a esse propósito compôs a ópera Betulia Liberata.

Assim Rui Catalão quis partilhar com o público, a sua versão e visão de uma história que o fascina.

A meu ver conseguiu….


 

De: Rui Catalão
 Atores: Ana Guiomar, Claúdia Gaiolas, Tiago Vieira, Rui Catalão
 Figurinos: Carlota Lagido
 Desenho de Luz: Cristóvão Cunha
 Direção de produção: Tânia M. Guerreiro
 Produção: [PI] Produções Independentes
 Coprodução: TNDM II

 

 

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