MNAC

Museu do Chiado – MNAC

9 de outubro, 2014 0 Por Rui Freitas
Modo Noturno

A arte está ali. Mais longe do que o televisor, mas sem contra indicações intelectuais. Os museus de Arte são jardins de cultura, espaços de interioridade onde se encontra um equilíbrio, e uma harmonia, na maior parte dos casos conseguido por contrastes entre formas, estilos, linguagens e sentir tão díspares quanto os limites da criatividade. Onde é possível sair temporariamente de um universo poluído e entrar numa redoma protegida, de encontros interiores e de paz, alimentados pela beleza da força criativa. O visitante de um museu é por momentos um ser privilegiado que respira o ar onde amadurecem os poemas, os romances, os dramas, as memórias, as angústias e as ilusões dos artistas que aí têm as suas obras, arrancadas à História e oferecidas ao mundo. Vê-se envolvido em diálogos ou torna-se ouvinte de monólogos, a que as obras, sem pedir licença o submetem. Obras que fazem eco do retorno que os artistas libertam daquilo que recebem, imposto pelo que os rodeia, e que os preencheu até se ter tornado emergente manifestá-lo. Mensagens em linguagem tão universal quanto o próprio sentir. O espaço de um museu de arte mostra-nos o nosso mundo visto pelo olhar, mas exposto pelo coração, de quem ali o tem representado, mostra-nos o interior de nós próprios, disfarçado pelo interior dos artistas

Grupo do Leão - Columbano Bordalo Pinheiro

Grupo do Leão – 1885 Columbano Bordalo Pinheiro (Foto ©Wikipedia)

As coleções públicas de arte em Portugal tiveram origem na nacionalização em 1843 dos bens das ordens religiosas que já tinham sofrido forte delapidação pelo Terramoto de 1755 (as da capital) e pelas Invasões Francesas, e foram significativamente alargadas com a confiscação em 1911 dos bens da casa real, então espalhados pelos seus diversos palácios e palacetes.

A mais importante de todas foi reunida no Museu Nacional de Belas Artes e Arqueologia, fundado em 1884 e que em 1911 foi por decreto, divido em dois: o Museu Nacional de Arte Antiga, que se mantém até hoje no local da sua origem, o Palácio dos Condes de Alvor nas Janelas Verdes em Lisboa e o Museu Nacional de Arte Contemporânea, instalado no Convento de S. Francisco, antiga sede da Academia de Belas Artes e da Academia Nacional de Pintura igualmente na capital do país.

O Museu Nacional de Arte Contemporânea foi pioneiro no seu género a nível internacional e continua entre nós como um ilustre (quase) desconhecido. O Museu teve como primeiro diretor o pintor Carlos Reis (1862-1940) que manteve uma gestão conservadora, e de rejeição dos novos movimentos herdados da casa anterior. Seguiu-lhe Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929) que continuou na mesma linha. Apenas Adriano de Sousa Lopes (1879-1944) que sucedeu àquele veio dar finalmente ao Museu espaço para o Modernismo, o que ainda assim não durou muito. Em 1945 sob a direção do escultor Diogo Macedo (1889-1959) o museu passou a abrir ao público diariamente e apesar de o artista e então diretor ser considerado um dos expoentes do Modernismo, ditou um retrocesso na orientação das escolhas para as exposições temporárias, e as opções voltaram-se para novamente artistas do passado.

Esta política foi ainda mais agravada em 1959 com a polémica escolha para a sua sucessão do pintor Eduardo Malta (1900-1967) que operou mais um duro golpe na já decadente imagem que o museu gozava pela sua continuada oposição aos modernismos. E nada se alterou até 1988, quando durante o incêndio do Chiado e por precaução as obras forma retiradas, ao que se seguiu um processo de renovação, em curso até 1994, data da reabertura.
Desde que renasceu com a denominação Museu do Chiado, as mais recentes equipas diretivas têm optado, para as exposições temporárias, por programas para revelação de artistas contemporâneos desconhecidos; exposições retrospetivas de artistas e movimentos nacionais e estrangeiros e no alargamento da intervenção a expressões como a fotografia e o vídeo. O museu ter-se-á conciliado com as expectativas do público e o interesse dos artistas.
A coleção permanente situa o seu intervalo histórico entre 1850 e a atualidade, mas reserva as obras posteriores a 1975 a exposições temporárias alternadas. A exiguidade do espaço impede infelizmente que toda a obra esteja em exposição, obrigando à sua rotatividade

MNAC - Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado

MNAC – Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado – Átrio Principal

Um passeio pelas suas salas faz-nos viajar do Romantismo ao presente, passando por alguns dos mais representativos artistas e obras da (sobretudo) pintura portuguesa, num catálogo com cerca de 150 artistas do qual podendo ser injusto fazer destaques eu arrisco alguns nomes, sem qualquer ordem: Columbano, Amadeo de Souza-Cardoso, Soares dos Reis, Eduardo Viana, Almada Negreiros, Vieira da Silva, Júlio Pomar, Helena Almeida, José Malhoa, Paula Rêgo, Veloso Salgado, Ângela Ferreira, Pedro Calapez, Julião Sarmento, e tantos outros.
O próprio interior do edifício, cujo projeto de requalificação é do francês Jean-Michel Wilmotte, goza de um aproveitamento espacial estratificado na vertical, para evitar perda de superfície horizontal e deixa ver a beleza de alguns pormenores da estrutura original em convívio com soluções atuais.

É um dos mais importantes espaços para apreciar e fruir “ao alcance da mão” a Arte Portuguesa dos últimos dois séculos em algumas das suas obras e artistas mais marcantes.
É ainda assim um dos mais ilustres desconhecidos dos habitantes e visitantes de Lisboa, e como escreveu Voltaire, “Tudo isso é muito bonito, mas o que é preciso é cultivar o nosso jardim.” (1)



(1) Cândido ou o Optimismo, Trad. Maria Isabel Gonçalves Tomás Publ. Europa-América, Lisboa (1973)

 
 
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