Cultura

Cultura

2 de outubro, 2014 0 Por Rui Freitas
Modo Noturno

A Cultura pode ser observada como um todo e desta forma ser encarada como um conceito abstrato e único, válido para toda a civilização, ou como o antropólogo britânico Edward Burnett Tylor (1832-1917) no seu livro Primitive Culture (1871) afirmava ser: “…that complex whole which includes knowledge, belief, art, morals, law, custom, and any other capabilities and habits acquired by man as a member of society”.
Considera-se a cultura de um povo, mas também de uma aldeia ou de uma família e o todo cultura varia com as partes, sejam elas o grupo ou o indivíduo, porque essas, mudam com as sociedades, e dentro delas, com as épocas, ou entre povos e etnias. Embora a cultura de cada indivíduo reflita a cultura relevante do grupo, as suas particularidades enriquecem o mesmo grupo e distinguem-no dos modelos ditados pela cultura dominante que se impõem na forma de “regras”, orientadoras de gosto e de rotinas. A cultura sobrevive num grupo por osmose, mas também por comodismo e pelo amparo da normalidade e os tempos trazem-nos as culturas globais ou de massas, cada vez mais amorfas descaraterizadas e ignorantes.

Ovelhas
A cultura artística faz parte do todo Cultura e reflete um extrato importante das características das sociedades modernas. Tudo começou quando, no fim da Idade Média, no período conhecido como o Renascimento, os artistas deixaram de ser considerados meros artífices copistas ou imitadores da natureza e passaram a ser vistos como pessoas com algo mais do que habilidades invulgares.

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Nos secs. XVI e XVII, Cultura associava-se frequentemente a civilização e as pessoas cultas eram uma elite educada e distinta. Em volta das pequenas mas ricas cortes italianas cria-se o Mecenato. Já no séc. XVIII, fruto do pensamento iluminista a arte começou gradualmente a ser vista – para lá do aparato alegórico – com elevação, e o enobrecimento que começou na pintura, no desenho e na escultura e foi-se alargando ao teatro, à dança e à música. Um pouco ainda à imagem dos cortesãos, os senhores da nova classe burguesa encomendavam quadros para enriquecerem as suas salas e retratos para ostentarem uma posição aos seus convidados. No séc. XIX o estatuto social dos artistas foi-se elevando e adquirindo visibilidade no contexto social e a arte deixou de ser feita apenas por encomenda, os artistas começaram a criar a expensas e risco próprios e iniciam-se as exposições (principalmente) coletivas em salões – a arte outrora presente apenas nas cortes e nas casas senhoriais é trazida para o dia-a-dia do cidadão “comum”.
A melhoria das condições de vida das classes médias e o aumento dos tempos livres, fruto da crescente industrialização me dos novos pensamentos de liberdade individual , ajudaram a fomentar a sociabilização, e o sentido do social alargava-se dos salões para os cafés e para os clubes. Aí, em volta dos folhetos das exposições e das modernas magazines, já com o proveito da fotografia, que inventada/descoberta no início do séc. XIX deixava de ter uso exclusivo para a ciência, começava a crítica jornalística e naturalmente começava falar-se de arte. Começava a discutir-se arte.

Com o aparecimento do cinema, das emissões de rádio, e da gravação em disco no fim desse século, e da televisão no início do séc. XX os espetáculos que na geração anterior, apenas estavam ao alcance da nata da sociedade, puderam passar a ser apreciados em casa das famílias mais abastadas e nos clubes, por uma população que passava então apreciar e a comentar concertos de música sinfónica, espetáculos de bailado ou mesmo peças de teatro. Começou a falar-se e a discutir-se cultura e o que até há poucas décadas era considerado assunto de literatos e elites popularizou-se a bem da divulgação popular para o alcance de todos. Ser culto passava a ser estatuto e afinal era alcançável, bastava “saber” falar de arte.

Nos últimos anos com o advento das novas tecnologias da informação, com a digitalização associada à produção artística ocorreu uma nova revolução. Primeiro na produção de cópias e distribuição cada vez mais massiva e acessível nos circuitos comerciais, e logo a seguir com a cópia privada desregrada e a difusão marginal sobretudo de música e de cinema, tornou-se a cultura cada vez mais “universal”, mais disponível e inevitavelmente menos filtrada. Já em 1936 no livro A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica, (Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit, no original) Walter Benjamin (1843-1940), afirmava que “ao multiplicar o reproduzido, [massificando a cópia indefinida de obras de arte] (…) permite[-se] à reprodução ir ao encontro de quem apreende,” mas considerava que esta multiplicação provocava “um profundo abalo do reproduzido”.
Ao contrário do que seria de esperar, a democratização da cultura não se refletiu positivamente na qualidade da arte, e Mário Varga Llosa responsabiliza essa democratização por uma queda acentuada de qualidade da cultura e afirma que “a cultura transformou-se numa espécie de entretenimento, de diversão”. Não me parece que a cultura não possa servir os fins do entretenimento e da diversão, não podem é estes estatutos substituir-se aos que enobrecem a obra de arte, nem enganar-lhe o estado de contemplação e elevação cultural em troca pelo vazio estéril e sem caráter dos produtos meramente comerciais.
Não só Llosa se manifestou sobre este fenómeno, ele tem preocupado filósofos e estetas, e tem produzido estudos e reflexões que se orientam em vários sentidos. Walter Benjamin afirmara quase meio século antes que “a democratização da cultura (…) promove um espírito pouco atento, pouco seletivo”, e já na primeira metade do séc. XX vários pensadores tinham atribuído responsabilidades na orientação (ou desvio) do gosto artístico à necessidade de satisfazer os clientes ou o mercado.

Todos nós, com maior ou menor angústia já nos deparamos com os efeitos desta inflação da cultura que numa tentativa de se popularizar e de chegar a todos, se vulgariza e se dissolve pelas prateleiras dos supermercados junto com a fruta e com os detergentes, conduzindo a um ciclo interminável entre a diminuição do grau de exigência do fruidor e a consequente diminuição da qualidade do artigo. Theodore Adorno disse que “a cultura de massas (…) promove o fácil e o pronto a servir (…) enquanto o recetor é tratado como um mero consumidor acéfalo”.
Para João Gaspar Simões, escritor, crítico e historiador literário (1903-1987), só através da cultura o homem, “centro de toda a atividade pensante”, pode alcançar a liberdade e a independência mental e intelectual e por consequência, o direito à escolha da direção a seguir na sua própria vida.
Os grupos sociais têm cada vez mais o comportamento de manada e o fenómeno das redes sociais trouxe a palha que faltava. Vemos o mundo cumprir-se como aquilo a que nos anos 60 do séc. XX, o filósofo canadiano Marshall McLuhan chamou a “Aldeia Global”.
Inventou-se e adotou-se a partilha e divulgação sem fronteiras da informação pessoal, e fez-se dos gostos de cada um a sua marca de caráter e a dada altura as pessoas começaram a deixar-se guiar, passando a dar uma importância crescente ao que os outros pensam e a querer imitar os gostos que parecem bem. As opiniões passaram a ser coletivas, coisa que já há cem anos, Fernando Pessoa (1888-1935) referia ao falar do “provincianismo mental da generalidade da nação”. Segundo o poeta isto devia-se (deve-se) aos artifícios da civilização, que se refletem de um modo geral, numa incapacidade de refletir, de criticar e de questionar, ou ainda de pensar individualmente e com ideias próprias.
A industrialização da cultura responde a interesses comerciais e financeiros, e os promotores vêm-se rendendo e tendendo a fornecer ao público o que o público está disposto a comprar, orientando o mercado para o produto fácil e imediato, agradando a um público pouco exigente. Enquanto os críticos de arte, tendem a “transformar” em escritores pessoas que escrevem livros, e em músicos pessoas que tocam um instrumento e cantam umas cantigas, escancaram-se portas para artistas medíocres sem outro critério que não seja a venda rápida e para “filisteus” e hedonistas sem critério nem gosto. Confunde-se muito frequentemente objetos artísticos com obras de arte, para se transformarem simples artesãos com gosto em artistas da moda. O círculo não termina e o mercado tende a dar razão ao crítico, e a estimulá-lo para continuar a alimentar este sistema potencialmente interminável, mas rentável, deixando para trás no obscurantismo arte e artistas. Os cidadãos querem cultura, e os críticos dão-lhes o que têm (o que querem) depois, só é necessário a imprensa fazer-lhes crer que cultura é aquilo. Exemplos disso por cá são a propagação e a quantidade de horas de programação televisiva preenchidas com telenovelas, series soap e com reality-shows, e o relevo que lhes é dado na imprensa de massas.

Na televisão recorre-se a jovens bonitas/os de preferência “filhos de alguém” em lugar de artistas das escolas teatrais; na literatura, as montras das livrarias não faltam “obras” escritas(?) por figuras públicas a maior parte das quais é difícil considerar literatura, mesmo de massas; na música a ininterrupta inundação do mercado por peças sem qualquer valor estético, seja ele linguístico, musical ou mesmo visual, e que eclodem, atingem o zénite e desaparecem numa só época é confrangedor; nas artes plásticas e no teatro a procura é lamentavelmente tão baixa que não é um mercado apetecível nem para a parasitagem e quando há procura é em procissão, é porque “os outros” vão. E a cultura, a verdadeira cultura vê-se atropelada pelo mau, atolada no pântano do kitsch; a arte vê o mau-gosto a tentar escondê-la e tomar-lhe o lugar. Tornou-se corrente e aceitável profanar a arte séria pelo recurso a adaptações bárbaras; imitações, reinterpretações e dissecações, poluindo o éter artístico e ofendendo a cultura e a estética. Porque há um estado de interdependência, e de satisfação entre as partes, não é fácil perceber onde este fenómeno começou, mas Llosa ao mesmo tempo que “culpa” a referida democratização, desculpa-a pela generosidade da intenção na sua base e responsabiliza então os meios de comunicação massivos, a que Adorno também aludiu.

Adorno afirmava que “só é arte aquilo que se opõe ao não artístico e a arte existe na medida da existência do seu contrário”. Mas, “o seu contrário” insistentemente apresentado pelos críticos e pelos media como arte cresce e espalha-se a ritmos tais que a cultura que, como dizia Almada Negreiros, (1893-1970) é um fenómeno individual, corre riscos desde a segunda metade do séc. XX, de se tornar um processo solitário.

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